O célebre quadro "La trahison des images", que René Magritte (1898-1967) pintou em 1929 para reproduzir a imagem de um cachimbo que paira sobre a frase "ceci n'est pas une pipe" (isto não é um cachimbo) ajuda a aceitar a sedução que as não notícias parecem exercer sobre algumas das nossas agendas mais mediáticas.

Quando, já nos últimos anos de jornalismo ativo, fui colocado numa secção do jornal cujo conteúdo era considerado menos prioritário para a estratégia informativa então vigente, tentei, a pretexto da celebração dos 500 anos da primeira viagem do português Pedro A. Cabral ao Brasil, escrever a réplica possível da reportagem dessa "aventura" entre Lisboa e Porto Seguro - o curioso é que alguns leitores pensaram que eu estava mesmo a viajar para o Brasil, por mar e na mesma rota de Cabral.

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Percebi que pode ser relativamente fácil fazer com que outros acreditem naquilo que queremos que eles acreditem, e percebi também que a fronteira entre a notícia e a não notícia pode ser muito ténue. Como já não tenho carteira profissional de jornalista, não posso divulgar notícias, mas posso comentar notícias ou não notícias que outros divulgaram, como que a pintar um cachimbo e a garantir isso não é um cachimbo.

Quando era jornalista encartado e orientava estágios de jovens saídos das escolas de jornalismo tinha por hábito marcar como um dos primeiros trabalhos do estágio uma "reportagem" por consultórios médicos da cidade do Porto. Sugeria que entrassem em alguns consultórios do centro da cidade e "descobrissem" nas respectivas salas de espera matérias para a reportagem. Podia ser, dizia-lhes, uma reflexão sobre a actualidade das revistas (em regra muito antigas) colocadas à disposição dos doentes nas salas de espera.

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Secretamente tinha a esperança de descobrir alguém que me trouxesse uma reflexão sobre um acontecimento antigo que no momento em que foi notícia tenha merecido um grande destaque entretanto reconhecido como exagerado. É situação muito mais vulgar do que podemos pensar, tal como a contrária, ou seja, dar pouca importância a um acontecimento que virá a revelar-se muito importante. O jornal onde trabalhei mais anos limitou-se a dar cinco linhas a uma coluna à notícia do crash da bolsa de NY em 1929. Ainda hoje falamos dessa crise.

O desafio deste espaço de informação parece reavivar a saudade da escrita formatada em pirâmide invertida, como julgo, se a memória não me falha, diziam ser a melhor técnica de fazer notícias. Felizmente isto é uma não notícia (uma falsa não notícia, claro) que poderá ter desenvolvimento se vier a ter leitores, como no íntimo espero.