Muitas vezes você fica chocado com o que vê. Coisas que nem em sonho você consegue conceber, mas que em algum lugar neste mundo imenso, são realidade. Um livro me fez conhecer um pouco da história e costumes do Afeganistão, escrito por Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas, seu título no Brasil, ou O Menino de Cabul, título em Portugal, é um daqueles livros que você começa e não consegue mais parar de ler. Você se transporta para outro País, outra cultura, viaja na narrativa do autor e se emociona com amores, dores e tristezas dos personagens. Neste livro, em particular, me vi nas paisagens e senti o vento no rosto ao correr atrás da Pipa, tão cobiçada por Amir, principal personagem da história, mas ao mesmo tempo sofri com o preconceito vivido por Hassan, companheiro de Amir.

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Em certo momento do livro, é apresentado ao leitor, um pouco do  submundo  do  Afeganistão, o  mundo  dos "Bacha Bazi",  os  meninos que  se vestem com  roupas  brilhantes,  com  muitos  adornos,   incluindo   sininhos amarrados  nos  tornozelos  e  pulsos,  para  que  façam   barulho  ao   dançar.  Muitos   destes  meninos    são sequestrados,  outros  comprados  de  seus pais,  ou  como no livro,  comprados em um orfanato,  lugar   onde deveriam estar à salvo deste costume  absurdo. São ensinados a dançar como uma mulher e a se apresentarem para seus "donos" e amigos.

De repente deparei-me com uma matéria na internet, um documentário do jornalista afegão Najibullah Quraishi, que apresentava ao mundo os "Meninos Dançarinos do Afeganistão" e contava a triste realidade por trás da dança.

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Para editar este documentário, o jornalista fingiu-se de amigo de um ex-comandante mujahideen que o levou ao submundo da pedofilia no Afeganistão, onde meninos, tal qual no livro, veem-se perdidos e violados em todos os sentidos, por homens que abusam do poder do dinheiro e gozam de total impunidade. Após a dança, onde muitas carícias e obscenidades são feitas aos pobres meninos, eles muitas vezes são violentados por vários homens.

Ao que parece esta "tradição" antiga havia sido banida pelos Talibãs, estes, mestres em outros horrores, mas após a queda do Talibã, tudo voltou a ser como era na época dos senhores da guerra, onde era prestígio um comandante poderoso ter seu "bacha" e apresentá-lo aos amigos em festas íntimas. No Afeganistão, infelizmente, as mulheres são consideradas seres de 2a. classe, ótimas para afazeres domésticos e para gerarem filhos, mas para os homens, o prazer é conseguido com os meninos, pois a própria cultura afegã mantém as mulheres totalmente cobertas e inacessíveis aos homens.

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A maioria dos casamentos são de fachada e simplesmente meio de procriação, uma mulher não é companheira, amante, talvez até por ser tão enraizado o medo da punição exagerada à quem se envolver com uma mulher antes do casamento. Os meninos são acessíveis e com a grande pobreza do País, é fácil conseguir o seu "bacha" particular.

Ao completar 18 anos um "bacha" é libertado de sua "prisão" e pode casar-se, mas na grande maioria das vezes, já está totalmente abalado psicologicamente e incapaz de reencontrar sua masculinidade. No livro, Amir consegue a liberdade de um "bacha" enquanto jovem, mas na realidade, é muito difícil, quase impossível, que estes "escravos sexuais" consigam livrar-se de seu trágico destino, antes de completarem a maior idade.