O movimento de guerrilha e terrorista Boko Haram, de inspiração islamita radical, declarou a constituição de um estado islâmico numa área por si controlada no Nordeste na Nigéria, na cidade de Gwoza, próximo da fronteira com os Camarões. Através da divulgação de um vídeo, o grupo responde desta forma à concertação dos estados da região, que já o tomaram como inimigo comum. Depois do rapto das 200 crianças, o Boko Haram volta a ganhar espaço na guerra mediática e simbólica, afirmando-se como ameaça mais credível para os seus inimigos próximos. Ao mesmo tempo, reforça a ideologia de guerra santa em nome do Islão, a herança de Osama bin Laden.

Os académicos referem que são necessários três elementos para que um estado possa ser definido como tal: um território, uma população e um governo. Habitualmente, são atribuídos outros requisitos, nomeadamente o reconhecimento internacional por (muitos) outros estados, ou a capacidade de se relacionar diplomaticamente, etc. Em todo o caso, no momento actual, seguramente que o Boko Haram, tal como o Estado Islâmico, preenche os três primeiros e essenciais requisitos (ainda que numa única cidade). 

Neste sentido, esta declaração é acima de tudo simbólica, traduzindo "oficialmente" a situação militar e política que se vive no terreno. O Boko Haram vem, por um lado, reclamar um estatuto semelhante ao do Estado Islâmico (na verdade, as declarações desajeitadas do chefe Aboubakar Shekau não dizem explícitamente que estatuto ele define para si próprio: se é ele o responsável de um novo estado islâmico ou se reconhece o Califa Baghdadi como o seu "superior", sendo o Califado uma só entidade.) A mensagem é óbvia, e mais explícita do lado do Estado Islâmico: não somos um simples grupo de guerrilha que vive escondido nas matas, nas montanhas ou no deserto. Somos suficientemente poderosos para controlarmos o nosso próprio "país". Não somos uma Alcaida que, vivendo escondida, envia os seus operacionais para o Ocidente às escondidas. Em vez disso, temos a nossa casa, onde mandamos nós, e convidamos os "jihadistas" do Ocidente a virem até cá e ajudarem-nos a crescer. Além de se aumentar simbolicamente o seu próprio estatuto, o Boko Haram aproveita o timing para reforçar a mensagem de que o movimento de guerra santa está a crescer, a tornar-se mais agressivo e bem sucedido. 

Em todo o caso, as bases para um "estado" parecem menos sólidas na África Ocidental que no Médio Oriente. Veremos qual será a resposta dos estados da região (sendo que, naturalmente, o governo nigeriano já declarou que a reivindicação do Boko Haram não tem validade.)