Estado Islâmico e o Boko Haram vão marcar a análise política internacional em 2014. A sua emergência significa uma nova postura do islamismo radical, que está bem vivo, mais até que em 2001. Entretanto, que acontece à Alcaida "tradicional"? Antes de pensarmos nos factores que condicionam a nova estratégia do islamismo radical, devemos perguntar-nos o que aconteceu ao grande inimigo do Ocidente nos anos 2000. A conclusão a retirar é que Alcaida fracassou.

Ocorreram vários atentados além do 11 de Setembro: na Europa, na Índia, na Indonésia, na Rússia - quem se lembra das crianças de Beslan, dos atentados em Moscovo e da forma gélida como os Russos lidam com esta questão? Mas a Alcaida anunciava que o Ocidente iria cair.

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Nada disso sucedeu. Pelo contrário: a capacidade operacional do grupo tem estado a reduzir-se, até quase ao nível de zero, e Osama bin Laden já foi "caçado". O fracasso da Alcaida foi tal que muitos se perguntam, depois das inconsistências e das teorias conspirativas em torno do 11 de Setembro, se teria havido pelo menos alguma complacência na criação de um "inimigo" para mobilizar a América e o Ocidente para a guerra. Restava-nos, contra isso, a ideologia de ódio disseminada entre alguns muçulmanos, em especial no Ocidente, e os vários grupos que reclamavam a bandeira da Alcaida, como aconteceu no Iraque.

O facto de o agora Estado Islâmico se ter "separado" da Alcaida pode ser crucial nesta questão. São mal conhecidos os motivos para essa separação, mas ela aconteceu - tal como os sucessores de Maomé desintegraram o Califado que ele criou.

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Nos vídeos, nas mensagens de ódio, nas ameaças do Estado Islâmico, não está presente a ameaça de novos atentados. A verdade é esta: pesem todas as teorias conspirativas, é muito mais difícil organizar um atentado hoje em dia. A guerra química, bacteriológica, etc., não é assim tão simples. Muito menos a questão dos aviões - quem viaja de avião sabe-o bem. Nem contra o minúsculo estado de Israel os terroristas se mostram eficazes. Onde o islamismo radical conseguiu sucessos foi na guerra psicológica: há hoje muito mais websites dedicados ao tema que em 2001.

O Estado Islâmico aplica agora recursos à construção de um Califado, no terreno, mais do que a fazer atentados que, no fim de contas, nada mudam. Para quê sofrermos como mártires, se depois fica tudo na mesma? Não são só os jovens ocidentais que estão fartos de lutar por empregos e não ver resultados. E esta diferença de opinião e de estratégia poderá ter sido determinante na separação entre Abu Bakr al-Baghdadi e Aiman al-Zawahiri.

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Os islamitas radicais podem agora ver resultados, sentir que algo foi construído, e não apenas sentir que se sacrificam mas tudo fica na mesma. É bem mais inspirador que a estratégia da Alcaida. De Osama bin Laden ficará talvez a memória do mártir dos primeiros tempos ao qual faltou a visão para empreender um projecto maior.

Mas o Estado Islâmico que se cuide: um Estado é um objecto que se vê e atinge muito melhor que uma célula terrorista ou uma guerrilha escondida no mato. Quando não se tem amigos de peso, isso é um risco grande.