Numa altura em que as economias sul-europeias dão sinais de estabilização, e afastado o pânico e o perigo que caracterizou os primeiros tempos após o crash de 2008, os europeus parecem estar a reconhecer que o tempo de austeridade terminou. Em contra-ciclo, as notícias das maiores economias europeias são de recessão. Se foi uma surpresa para a chanceler alemã Angela Merkel, e para o eleitor de classe média e média-baixa alemã que tem exigido mão firme nas contas e chicote nos sul-europeus? Não foi surpresa nenhuma para nós por cá.

Em todo o caso, o mês de Agosto parece revelar uma nova tendência. Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, anunciou na passada semana a possibilidade de compra de activos de dívidas soberanas, a exemplo do que fez a Reserva Federal norte-americana, para estimular as economias europeias.

Publicidade
Publicidade

A Comissão Europeia, pela voz do comissário para os Assuntos Económicos Jyrki Katainen, alerta para a necessidade de reagir à queda do sentimento económico, que se tem verificado a nível europeu entre consumidores e empresas. E até do FMI vem o conselho, pela própria directora Christine Lagarde, para a Alemanha subir salários. Uma retoma do poder de compra alemão iria gerar uma animação geral na Europa. Mais importante que isso, foi o sinal dado pelos mercados após as palavras de Draghi. Taxas de juro a descer, bolsas europeias a subir, taxas Euribor a recuar, tudo reflectiu o entusiasmo dos mercados perante a perspectiva de expansão e de recuo da austeridade.

 Mas a Alemanha, o player que interessa, não está convencida. Aparentemente, o sinal dado pelos mercados - sempre relevante na hora de justificar a austeridade - não convence o Sr.

Publicidade

Schäuble, ministro das Finanças alemão. Schäuble já veio dizer que os média e os mercados não interpretaram bem as declarações de Mario Draghi, e que esqueceram a necessidade de reformas estruturais, deixada pelo presidente italiano do BCE. Da mesma forma, ao longo dos últimos 3 anos, têm havido esporádicas declarações de Merkel no sentido de aliviar a austeridade mas que rapidamente caem no esquecimento. Não é à toa que uma recente sondagem deu a Merkel, há quase 10 anos à frente do país, um recorde de popularidade: ela sabe o que querem os seus eleitores. Quem vai prevalecer agora? O eleitor alemão, que quer mão pesada, ou os mercados que querem crescimento e alívio da mão de ferro?