Uma reportagem da BBC descobriu, na Costa do Marfim, um programa governamental de controlo da natalidade e promoção da igualdade entre géneros dentro do casamento. O programa consiste em "aulas para maridos" sobre questões como a desigualdade no trabalho doméstico ou a necessidade de medidas de contracepção. A reportagem destacou a colaboração de figuras de prestígio locais, nas vilas e aldeias, para ajudar a passar a mensagem do governo. Sendo que um desses cavalheiros, o sr. Kouayou Kouayou, tem 26 filhos, de 4 mulheres.

A comunicação social tem destacado o carácter insólito ou humorístico da situação, em que um pai de 26 filhos recomenda aos outros medidas de contracepção, em vez de salientar o esforço das autoridades marfinenses no sentido de erradicar práticas culturais que, na Costa do Marfim, em Portugal ou na China, podemos considerar como arcaicas e injustas.

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Esse é o tema principal desta notícia.

A BBC falou com Adiza Ba, coordenadora do Programa Nacional para a Mudança de Comportamentos. Nas áreas rurais, as mulheres efectuam o essencial do trabalho pesado, dentro e fora de casa, sendo que na maior parte dos casos não se trata de uma prática consciente por parte de maridos e mulheres. Simplesmente assume-se que sempre foi assim e é normal, e é com genuína surpresa que descobrem a injustiça e o desequilíbrio da situação. O programa consiste em aulas onde são debatidos estes assuntos, bem como a necessidade de contracepção.

Kouayou Kouayou é não só uma pessoa com prestígio mas também uma espécie de líder espiritual na sua comunidade. Ele explica com naturalidade que ter mais filhos, na cultural rural marfinense, equivale a ter mais prestígio e ser mais rico, e ele é, por assim dizer, "o maior da sua aldeia" uma vez que é também o pai de mais filhos.

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Mas Kouayou dá a cara pelo programa governamental, assumindo que é mais saudável para as mães dar algum espaço de tempo entre gravidezes. Os exemplos utilizados são os mais simples: uma mãe é como uma árvora de manga, que precisa de tempo entre cada fruto para voltar a ficar bonita, neste caso para o seu marido. A contracepção encontra resistências entre os marfinenses, por ser totalmente contrária a todo o seu background cultural - espalha-se a ideia de que a mulher pode ser infiel ao marido sem que exista uma gravidez como prova, além de receios de que possa tornar-se estéril.

Outro dos pontos essenciais do programa do governo é a redução da mortalidade materno-infantil. Nas aldeias, as crianças nascem em casa e existe resistência dos maridos em levá-la para o hospital - ou, em outros casos, falta de meios. A BBC recolheu a história de uma mãe solteira que, entrando em trabalho de parto doloroso à noite, os pais não tinham táxi para levá-la de imediato para um hospital, tendo acabado por falecer no dia seguinte, embora, já no hospital, os médicos tenham salvo o bebé.

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Na Costa do Marfim morrem, por dia, cerca de 20 mulheres durante o parto - número igual ao da China, que tem 60 vezes mais população. O país está em 9º na lista de maior taxa de mortalidade infantil, sendo acompanhado por outros países africanos.

É um sinal de esperança que Kouayou Kouayou se tenha juntado ao governo e que o governo esteja a desenvolver esforços para combater este pesadelo.