A epidemia de ébola que surgiu em dois pontos do continente africano (na África Ocidental e na República Democrática do Congo) está ainda fora de controlo, e parece estar também fora do radar das preocupações da comunidade internacional. O ébola pode ser considerado a "peste negra" do nosso tempo. De natureza viral, e altamente contagioso, o vírus provoca situações de hemorragia, com uma percentagem muito elevada de doentes a não conseguir sobreviver. Os sintomas surgem ao longo das três semanas seguintes ao momento do contágio, que pode ocorrer através do contacto com o sangue ou os fluidos corporais de outra pessoa doente - sendo que na origem está o contacto de humanos com animais infectados, como porcos ou macacos.

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Os surtos de ébola têm surgido habitualmente em África, onde os padrões de higiene são mais baixos e o contacto de seres humanos com animais é mais frequente e menos controlado. A crise que surge agora na Serra Leoa, Libéria e Guiné-Conacri é, contudo, a mais grave de sempre relativa a esta doença. O facto de as fronteiras entre estes três países serem quase virtuais (nomeadamente, no caso da Serra Leoa e Libéria, tratando-se de países que atravessaram longas guerras civis) ajuda à disseminação da doença. A vizinha Guiné-Bissau já tomou medidas extremas no sentido de encerrar as fronteiras, suspender mercados, festas públicas e tudo o necessário para ajudar a controlar o vírus.

O facto de o ébola não ter uma vacina nem uma cura (embora sejam aplicados tratamentos de reidratação) reflecte o quão a medicina dita científica (uma vez que se baseia no método científico) tem ainda de evoluir, não só em termos científicos mas em termos morais.

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Nem falamos já em medicina ocidental, uma vez que por tudo o mundo é a medicina científica que se torna o padrão de saúde - mesmo na China como se viu no recente caso de implantação de uma vértebra impressa em 3D. Em todo o caso, a forma como se permite que uma doença deste género possa progredir e afectar de forma tão flagrante populações que passaram por dificuldades extremas nos últimos 30 anos é um sintoma dessa não prioridade.

Em termos humanitários, o mundo está neste momento preocupado com várias crises políticas. Nem os americanos, os russos ou os chineses estarão demasiado preocupados com uma doença que, devidamente controlada, só se espera que cause vítimas no continente africano. Só mesmo se a situação lhes batesse à porta. O mesmo vale para os combatentes do Estado Islâmico ou do Boko Haram, que nos seus sonhos de construção de um mundo novo, também nada têm a dizer sobre esta tragédia.