O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho anunciou hoje perante o Parlamento, de forma enfática, o que poderá ter sido o encerramento do caso Tecnoforma. A denúncia baseava-se no facto de Passos ter requerido ao Parlamento um subsídio de exclusividade de 60.000€. Após uma semana de incertezas, e depois de, em vez de explicar directamente o caso ou responder frontalmente às acusações, ter solicitado à Procuradoria-Geral da República uma explicação, Passos tenta encerrar o tema com a notícia que a Procuradoria arquivou o caso, invocando a prescrição de eventuais não declarações e não se terem encontrado indícios de algum crime. Passos Coelho alegou que recebeu apenas despesas de representação do Conselho Português para a Cooperação, organização sem fins lucrativos que era participada por dois administradores da Tecnoforma, não tendo recebido salário nem do Conselho nem da Tecnoforma.

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A denúncia mencionava que o primeiro-ministro receberia 5000€ por mês da Tecnoforma, durante um dado período. O primeiro-ministro disponibilizou-se para apresentar as suas declarações de rendimentos entre 1991 e 1999 mas, naturalmente, recusa-se a levantar o sigilo das suas contas bancárias.



O caso ilustra bem o panorama político português actualmente. As acusações a primeiros-ministros não são, claro, qualquer novidade, em Portugal ou em outros países. Basta lembrar o caso Watergate que levou à queda de Nixon, nos Estados Unidos, o caso extra-conjugal que fez perigar a presidência de Bill Clinton, o caso bunga-bunga de Berlusconi, a acusação de abuso sexual que contribuiu para a saída de Dominique Strauss-Khan do FMI, ou até a detenção recente de Nicolas Sarkozy - já depois de ter saído da presidência.

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Serão simples manobras das oposições, que corrompem pessoas inocentes? Ou será, simplesmente, aproveitar o "lado lunar" de políticos influentes para tentar derrubá-los? Toda a sequência de casos contribui para denegrir, progressivamente, a imagem de credibilidade que é (ou seria) essencial em democracia. Mas este meio termo a que se chegou parece convir a todos.

Aparentemente, ninguém se lembra de procurar eventuais documentos que possam comprovar as despesas efectuadas. Passos Coelho não terá conservado cópias desses documentos nem coloca a hipótese de que o Conselho Português para a Cooperação possa ter acesso aos originais. E Passos Coelho também não confirma quanto recebeu em despesas de representação. É uma solução para todos: Passos Coelho porque já disse que não recebeu nenhum rendimento fixo e a Procuradoria afirmou o caso; a oposição porque fica com um caso por esclarecer que, há falta de melhor, pode ser agitado como argumento contra o primeiro-ministro. Só a António Costa teria sido conveniente que, nesta sexta-feira antes das directas no PS, Seguro tivesse perdido pontos no inevitável ataque a Passos Coelho. Mas não perdeu - até porque já referiu que vai tentar usar outros instrumentos para forçar Passos Coelho a revelar quanto recebeu em despesas de representação. É a imagem de político discreto e honrado de Passos Coelho que sofre um golpe.