Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, anunciou que a dívida do município baixou 8,2 milhões de euros face ao período homólogo de 2013, para os 91,8 milhões de euros. Ao mesmo tempo, Moreira afirma uma subida nas receitas de 7,3 milhões de euros, para os 144,6 milhões. Rui Moreira declarou ainda que o prazo médio de pagamento a fornecedores é de apenas 3 dias. Rui Moreira é um caso singular no panorama político português actual; contudo, o seu projecto e o seu "posicionamento", para utilizar um termo de marketing - e num tempo em que a política se serve tanto do marketing - recuperam uma tradição muito antiga da cidade do Porto.

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Até praticamente ao século XX, a cidade sempre se notabilizou pela sua forte de tradição de governo municipal. Ainda na Idade Média, os comerciantes, mercadores, burgueses do Porto começaram gradualmente a tomar conta do governo da cidade, que no início da Nacionalidade era prerrogativa do Bispo, instalado na Sé onde a cidade nasceu. Se o clero via o seu poder limitado, também a nobreza; durante séculos, foi vedado aos fidalgos o direito de ter casa no Porto ou de permanecer na cidade mais de 3 dias, e há casos relatados de violência contra os nobres que tentaram afrontar este direito da cidade. À medida que o Porto se tornou no "hub" de toda a região entre Douro, Minho e Trás-os-Montes, e sucedendo-se os ciclos de comércio com a Europa do Norte, com o Brasil e mais tarde com os vinhos do Douro, a tradição municipalista não perdeu força.

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Basta pensar na força psicológica e moral que significou o cerco de 13 meses durante a Guerra Civil (1832-1833), que valeu à cidade o título de Invicta, ou, mais tarde, a construção do porto de Leixões, no final do século XIX - uma obra inteiramente paga pelo Porto, pela Associação Industrial Portuense e pelo Norte, sem qualquer contribuição do governo central. E daí a resistência actual a que Leixões seja gerido por uma organização burocrática situada em Lisboa.

O sistema autárquico actual aponta para que os governantes locais pertençam a um partido político nacional. Embora as circunstâncias de hoje sejam diferentes, o eleitorado portuense não perdeu as suas características. Basta pensar no presidente da Câmara Fernando Gomes, que deu depois o "salto" para um cargo no governo em Lisboa, e que ao regressar ao Porto para ser novamente candidato a presidente, levou um rotundo "não" dos mesmos eleitores, que não gostaram do abandono. Com a entrada em cena dos independentes, não é de estranhar que tenha sido o Porto a primeira das grandes cidades a optar por uma personalidade que se apresentou com esta imagem: "o meu partido é o Porto." Caberá ao eleitorado, nas próximas eleições, validar se se tratou de um caso de populismo ou oportunismo ou de uma aposta ganha.