Nas comemorações oficiais do 104º aniversário da Implantação da República, o presidente da mesma, Aníbal Cavaco Silva, apresentou-se como o paladino da democracia e apontou canhões aos partidos políticos. Cavaco deixou palavras duras relativas ao irrealismo das "promessas" - um termo sempre utilizado em linguagem comum mas raramente utilizado em discursos oficiais - dos vários partidos políticos, que conduziram à descrença dos cidadãos nas várias alternativas e no próprio sistema político. Cavaco alertou também para a crescente abstenção, reflexo dessa mesma indiferença dos cidadãos perante a escolha e a decisão sobre os seus governantes. Cavaco deixou ainda um aviso, directamente para Pedro Passos Coelho e António Costa, apelando à cultura do compromisso entre os partidos.

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Um aviso, porventura, útil também para Paulo Portas, por estes dias em que são visíveis os desentendimentos entre os partidos da coligação governamental sobre uma descida de impostos. Cavaco falou até em "implosão do sistema partidário", caso continue o distanciamento entre os partidos políticos e os cidadãos. Finalmente, Cavaco fez tábua rasa das eleições primárias do PS enquanto instrumento de aproximação aos cidadãos - argumento largamente utilzado pelos dirigentes socialistas - ao referir que "pouco se avançou" nesta matéria e que é urgente mais transparência, a começar pelo modelo actual de financiamento partidário. O presidente terminou utilizando o termo "repulsa" para descrever a vontade dos cidadãos mais qualificados para o exercício de funções públicas, abrindo caminho, usando uma expressão do próprio Cavaco, à "má moeda."

As reacções partidárias foram diversas.

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O novo líder da bancada parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, devolveu a Cavaco que a autocrítica ao sistema deveria começar pelo próprio Presidente em exercício há quase 10 anos e que foi primeiro-ministro outros 10. O primeiro-ministro Passos Coelho subscreveu totalmente os alertas e a necessidade de compromisso enunciadas por Cavaco. Já o Bloco de Esquerda atacou a austeridade e o dr. Cavaco por apelar ao compromisso em torno dessa mesma austeridade, quando seria necessária uma ruptura.

Por último, refira-se que a presença de António Costa na sessão era enquanto presidente da Câmara de Lisboa, local onde as comemorações acontecem por aqui ter sido proclamada a República. O novo líder do PS aproveitou assim a ocasião para colocar os dois "bonés", da Câmara e do PS, e no seu próprio discurso aproveitou para apelar ao restabelecimento dos feriados de 5 de Outubro e 1º de Dezembro.