No primeiro relatório exclusivamente dedicado às consequências da crise financeira na vida das crianças portuguesas, a Unicef alerta para a necessidade de uma estratégia nacional para erradicar a pobreza infantil que é crescente especialmente desde 2010.

No estudo "As Crianças e a Crise em Portugal - Vozes de Crianças, Políticas Públicas e Indicadores Sociais, 2013", realizado pelo Comité Português da Unicef, ficou claro que "as crianças são o grupo etário em maior risco de pobreza" no país e que "a situação tem vindo a agravar-se com a adopção de medidas de austeridade, que têm impacto directo no bem-estar das crianças ao nível da saúde e educação e dos apoios sociais às famílias, especialmente às mais carenciadas".

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Além dos números

A investigação por detrás deste relatório entrevistou 77 crianças e constatou que a faixa etária mais baixa é uma observadora atenta e preocupada quanto ao impacto das medidas de austeridade no seio das suas famílias. Além disso, as crianças também falam sobre a crise, que está "em todo o lado", com os seus pares e têm a noção de que são os pais que suportam o peso que a crise tem no orçamento familiar.

Alguns dos adolescentes manifestaram também preocupação quanto ao seu próprio futuro por estarem atentos às condições laborais dos seus pais, alguns deles chegando a questionar o seu acesso ao ensino superior e a ponderar a emigração.

A crise afecta ainda a harmonia das famílias, com os horários sobrecarregados dos encarregados de educação e a constante preocupação relativa à necessidade material.

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Maior risco

O estudo conclui que "estão em grave risco de pobreza as famílias monoparentais em que a mãe/o pai está desempregado (90%) e as famílias de casais com crianças em que os dois membros (53%) ou um membro do casal (34%) estão desempregados". O relatório dá conta de que o número de casais desempregados aumentou 688% entre Outubro de 2010 e Junho de 2013, segundo os dados oficiais.

O resultado é que em 2010, a "taxa de privação material infantil atingiu o valor máximo de 27,5%" e em 2011, uma em cada três crianças estavam em risco de pobreza ou exclusão social.

A contribuir para isto estava a situação de emprego precário dos pais, mas também os cortes nas prestações sociais (por exemplo, entre 2009 e 2012, cerca de 500 mil crianças perderam o direito ao Abono de Família).

Algumas soluções

Tornar as crianças uma prioridade política com a criação de medidas centradas no investimento da educação e no acesso gratuito a serviços de educação de primeira infância e criar uma estratégia nacional de erradicação da pobreza infantil são duas das propostas do estudo.

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"De acordo com uma perspectiva de direitos humanos, a recuperação da crise deve começar com os mais vulneráveis e desprotegidos. Todos os que vivem em pobreza, incluindo as crianças, devem ser tratados como sujeitos titulares de direitos, e não como meros recipientes passivos de ajuda", diz o relatório.

Recorde-se que há pouco tempo, o Instituto Nacional de Estatística publicou um relatório que indica que praticamente um terço das crianças (31,6%) até aos 17 anos estavam em risco de pobreza (leia aqui o artigo sobre este tema). #Desemprego