A taxa de cremações passou de 3% para 12% dos óbitos em Portugal, de 2007 até ao presente. O crescimento foi especialmente importante em Lisboa e Porto, onde as taxas chegam a 60% e 40%, respectivamente. O facto foi tornado possível pela construção de vários fornos crematórios por todo o país, mas reflecte também uma mudança cultural. O aumento do número de cremações cresce em linha com a progressiva perda de influência da Igreja Católica no universo cultural da sociedade portuguesa. O funeral tradicional está muito associado à tradição da Igreja romana em Portugal. Não é, também, de admirar que seja nos maiores centros urbanos que os número de cremações aumenta, uma vez que é também aí que as crenças e os estilos de vida são mais secularizados e menos ligados à tradição, sendo precisamente maior o número de ateus e agnósticos.

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Outros factores podem concorrer para estes números, nomeadamente a maior dificuldade em encontrar vagas em cemitérios já altamente ocupados. E além da crença religiosa e da tradição, um outro factor importante para o costume do enterro é o peso familiar e a presença de antepassados no mesmo cemitério - situação que também tende a diluir-se nos maiores centros urbanos. Além de tudo, a própria Igreja Católica não proíbe, actualmente, a cremação, recomendando apenas que as cinzas sejam depositadas de uma forma dita tradicional, sem que sejam espalhadas na Natureza ou sirvam como decoração.

Já o número de doações do corpo para a ciência continua com números baixos, quase irrisórios, especialmente tendo em conta as necessidades das Faculdades de Medicina. A mesma tendência secularizante que leva ao aumento das cremações poderá também resultar num aumento do número de pessoas que se voluntariem para que o seu cadáver venha a ser utilizado por estudantes do ensino superior para estudo e prática. Contudo, verifica-se que são muito poucos e, mesmo, que uma percentagem significativa dos que se propuseram doar o corpo vêm mais tarde a retirar a sua palavra. Trata-se, habitualmente, de pessoas que o fizeram ainda jovens (entre os 20 e os 30 anos) e que mais tarde revêem a sua posição, sendo a vontade de ficar junto da família o factor que se pensa mais importante nesta recusa. Não estando também fora de parte um renascimento da crença religiosa da pessoa ao longo da vida.