O Clube de Filosofia Al-Mutamid organizou mais um dos seus jantares-tertúlia, mas desta vez o tema foi o Estado Islâmico e o número de presentes foi recorde, superando as 200 pessoas e alargando-se a pessoas não muçulmanas, como é habitual. Os oradores foram José Manuel Anes (do Observatório de Segurança e Criminalidade Organizada e Terrorismo), Cândida Pinto (jornalista da SIC) e o imã da Mesquita Central de Lisboa, David Mounir. Entre a assistência, várias pessoas colocaram as principais dúvidas que assaltam a opinião pública, em geral, sobre o tema do novo fenómeno de violência no Médio Oriente, e outras também para defender as suas teorias.

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O debate foi muito animado e, como referia um dos presentes, o tema não era fácil para os oradores.

O "sheik" Mounir, como por vezes é conhecido, foi muito claro e assertivo sobre o Estado Islâmico do ponto de vista da teologia. O líder de um grupo como o Estado Islâmico não tem o direito de se declarar como Califa, "líder dos crentes", e o princípio de acção da religião é a paz, e não a guerra. Mounir recordou também um detalhe curioso: o facto de o profeta Ali, o quarto califa, ter deixado um alerta profético sobre os falsos califas que viriam e que teriam alcunhas com o nome de cidades, como acontece com Abu Bakr Al-Baghdadi, que adoptou precisamente o nome da capital iraquiana.

José Manuel Anes referiu o facto de o recrutamento ser um fenómeno das sociedades europeias onde existem segundas e terceiras gerações de imigrantes islâmicos com problemas de identidade, que não se integram totalmente na sociedade de adopção mas que também não pertencem aos seus países de origem.

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Ao mesmo tempo, a falta de sentido comunitário e o individualismo do Ocidente ajudam o movimento a ir "buscar" outros jovens que se encontrem em situaões semelhantes às dos jovens muçulmanos. Esse é o caso dos participantes portugueses, sempre recrutados no Reino Unido ou na França e geralmente já nascidos nesses países. E embora não exista o mesmo risco em Portugal - uma vez que a comunidade islâmica não tem essas características - a Comunidade Islâmica admite que tem poucos meios para combater um eventual recrutamento. Por outro lado, sendo tão pequena e coesa, um recrutador externo seria facilmente notado.

Entre a assistência, destaque para os relatos de Clareana Marques, jovem que estudou no Egipto e que viu amigos seus captados para o movimento, entre muçulmanos liberais que se deixam atrair e jovens ocidentais desenraizados. No final, muitos dos presentes continuaram com dúvidas, mas o debate foi sem dúvida esclarecedor - e também um sinal de que a própria Comunidade Islâmica de Lisboa está totalmente atenta ao problema.