Os números da Associação de Combate à Precariedade mostram de que forma o "estrangulamento financeiro" influencia o sistema científico em Portugal. Numa amostra de mais de 1800 respostas a um inquérito conduzido em Fevereiro deste ano, 77,8% (ou 715) dos investigadores não só nunca tiveram acesso a um contrato de trabalho, como 79,5% destes não tiveram acesso a protecção social durante o #Desemprego.

"A condição de bolseiro/a é maioritária mesmo entre quem já completou a sua formação académica, o que indica a existência de milhares de investigadores/as privados da construção de uma carreira científica". Esta foi uma das conclusões do relatório, publicado em Abril passado.

Publicidade
Publicidade

Ainda assim, há mais doutorados

Portugal é o país da União Europeia que mais "produziu" doutorados nos últimos 20 anos, segundo uma notícia do Expresso publicada a 10 de Outubro. Os números publicados pela Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, mostram que em 2000 foram publicadas 860 teses de doutoramento no país e que em 2012 esse número passou para 2209.

Na conferência "O Futuro da Europa é a Ciência", realizada em Lisboa nos dias 6 e 7 de Outubro, Durão Barroso fez questão de destacar a importância do desenvolvimento científico na sociedade actual e no futuro. "A razão pela qual dedico uma atenção especial a este sector está na grande esperança que tenho na ciência", afirmou na altura o actual presidente da Comissão Europeia.

Na mesma ocasião, o Presidente da República demonstrou uma opinião semelhante.

Publicidade

"A ciência, hoje, numa conjuntura marcada pela globalização e pela fortíssima concorrência entre nações e entre regiões mundiais, tornou-se um elemento crítico de crescimento e competitividade, assumindo um inegável alcance geopolítico", apontou Cavaco Silva.

Mas a realidade é outra

Os dados da Direção-geral da Administração e do Emprego Público indicam que houve uma quebra de 5% no número de doutorados dedicados a tempo inteiro à investigação ou ao ensino nas instituições de ensino nacionais públicas, entre Dezembro de 2011 e Março de 2014, e que a tendência deverá manter-se ou piorar.

Além disso, não há ainda espaço para que o conhecimento científico português vá para além das universidades e instituições públicas. Segundo Leonor Parreira, secretária de Estado da Ciência, citada pelo Expresso, "apenas 3% dos doutorados portugueses estão a trabalhar em empresas e 80% estão na academia".

A média europeia é bem diferente do contexto português, com uma média de 30% de doutorados a trabalhar nos privados.

Publicidade

Mais longe vai Sofia Roque, membro do grupo de bolseiros da associação Precários Inflexíveis, também citada pelo Expresso: "O cenário da investigação científica em Portugal é muito angustiante" e "o país desistiu de apostar na ciência e na produção de conhecimento como fator de desenvolvimento económico e cultural".

Apoios a caminho

A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) já pôs em marcha um programa de apoio à inserção de doutorados nas empresas através do qual serão atribuídas 84 bolsas nos próximos quatro anos. Foi ainda criado o programa Investigador FCT, que já seleccionou 368 investigadores, aos quais serão atribuídos contratos de cinco anos para que possam desenvolver os seus planos de investigação no país. Uma outra medida a médio prazo será o reforço do Sistema de Incentivo Fiscal em Investigação e Desenvolvimento Empresarial.