O ano de 2014 tem sido fértil em desenvolvimentos na #Justiça portuguesa, e nomeadamente na sua relação com os poderosos. Entre detenções e condenações, são vários os casos ao longo do ano que parecem indiciar uma tendência diferente em relação a anos anteriores. A sensação de impunidade relativamente aos ricos e poderosos, e de desigualdade perante a justiça, tem sido um dos principais factores de perda de credibilidade da democracia portuguesa. É com espanto que a opinião pública assiste ao 'espectáculo' de 2014, em que a detenção de um ex-primeiro-ministro é sem dúvida o corolário. Mas um pormenor passa despercebido: o juiz, Carlos Alexandre, é o elo de ligação dos maiores processos.

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Ricardo Salgado, o director do Banco Espírito Santo, saiu acusado de branqueamento de capitais, falsificação de documento e burla, no âmbito do processo "Monte Branco", no furacão que levou à sua saída do Banco - e de caminho, à desintegração do mesmo. Também em 2014 vimos também o final de processos mediáticos, nomeadamente o Face Oculta, em Setembro. Contra todas as expectativas, o ex-ministro Armando Vara foi condenado a 5 anos de prisão efectiva, tendo saído em total estado de choque do tribunal. Também em Setembro, a ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada por prevaricação enquanto responsável governamental do ministério da educação. Há poucos dias, foi o caso dos Vistos Gold, com a detenção de altos quadros do Estado, nomeadamente os directores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e do Instituto de Registos e Notariado.

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E, agora, a detenção de José Sócrates.



Terão as detenções uma especial motivação política? Uma pessoa ligada ao PS afirmava que era uma manobra para distrair dos vistos Gold. Contudo, o juiz responsável é o mesmo: Carlos Alexandre. De acordo com o Diário de Notícias, Carlos Alexandre tem estado envolvido com os casos "Operação Furacão, BPN, Máfia da Noite, Face Oculta, Remédio Santo, CTT, Operação Labirinto" dos vistos Gold, e agora com a detenção de Sócrates. Nas redes sociais, muitos pedem protecção especial para Carlos Alexandre, como Eduardo Silva, que espera que não lhe aconteça o que aconteceu "a Rui Teixeira, a Baltazar Garzón e ao juiz italiano que foi morto antes de ditar o veredicto das máfias."



Relativamente ao caso de Sócrates, a diferença será o seu significado político. E nesse ponto, comentadores políticos e cidadãos anónimos têm uma opinião quase consensual: se Sócrates for considerado culpado, é o actual sistema político que sai totalmente descredibilizado; se for considerado inocente, é uma situação muito grave para o sistema judicial. Seja como for, e numa altura em que o País até se preparava para tentar algum tipo de "reconstrução" no pós-Troika, é quase a certeza de que nada será como dantes agora que um ex-primeiro-ministro foi detido.