Vergonha, surpresa e inquietação; são estes os denominadores comuns no seio do partido, depois de confirmada a detenção e a posterior prisão preventiva de José Sócrates. Os socialistas estão destroçados por dentro, mas demonstram uma aparente tranquilidade quando questionados pelos entusiasmados jornalistas que, nunca na história da democracia portuguesa tinham presenciado um caso semelhante com um ex-primeiro-ministro e uma figura tão carismática como é Sócrates. Os poucos dirigentes do PS que falam publicamente não escondem a perplexidade. Os semblantes estão carregados e há uma nuvem de dúvidas que paira no ar. O golpe foi profundo e, por isso, as reações têm sido comedidas.

O PS vê-se a braços com uma enorme prova de fogo. Está em pleno processo de mudança de líder, que quer alicerçar as suas directrizes, depois de uma muito conturbada disputa eleitoral com António José Seguro, e que só tencionava focar-se na construção da alternativa de Governo. Quando o partido se preparava para estabilizar com uma nova direção e entrar em "velocidade de cruzeiro" até às legislativas do próximo ano, surge esta bomba política, social e mediática. António Costa não perdeu tempo para acalmar as hostes e pôr as coisas no devido lugar. Pelo menos, no lugar onde as queria. Ressalvou as amizades pessoais (Costa e Sócrates sempre foram grandes amigos), distanciou o partido do processo, manifestou confiança na #Justiça e tentou focar as atenções do partido somente nas ações políticas. Os militantes seguiram o pedido do seu novo líder e são poucas as caras a falar abertamente do caso.

Já depois da confirmação da prisão preventiva de Sócrates, o novo secretário-geral do PS voltou a "bater na mesa" e a estabelecer uma ordem no partido, distanciando-se mais uma vez: "Nada disto penaliza e afeta aquilo que são as convicções e os valores essenciais do PS". Distância que se manteve no congresso em que, apesar do enorme aparato jornalístico, não foi feita nenhuma referência ao caso " Operação Marquês" durante todo o fim-de-semana.

No entanto, a tarefa parece, neste momento, hercúlea para António Costa. Se continuarem a surgir novas notícias relacionadas com a investigação, a atenção estará, naturalmente, focalizada apenas nisso e a sua campanha eleitoral passará para segundo plano. Numa coisa todos parecem concordar: Costa fez uma gestão ponderada do caso e tem toda a legitimidade e força suficiente para se impor por si próprio, apesar da natural ligação que mantinha com José Sócrates. A solução: O seu novo pelotão terá de ser à prova de bala e, sobretudo, acima de qualquer suspeita. A credibilidade do partido terá que ser tratada com pinças de aqui em diante.