A lenda diz que o primeiro amor é o tal, o verdadeiro. Depois disso, jamais seremos capazes de amar novamente. Uma falácia contada vezes sem conta nos romances, nos contos de fada, nos filmes. Se não ficarmos com aquela pessoa que fez o nosso coração acelerar pela primeira vez, nunca mais seremos felizes. Afinal, só temos capacidade de amar uma única vez.

Foi assim, que os nossos avós, bisavós e trisavós conseguiram ser "felizes para sempre". Um pontapé, uma estalada, uma palavra mal dita, ou uma, duas, três, quatro traições teriam que ser necessariamente aceites. Tudo pelo único e verdadeiro amor. Mas, eis que um dia a sociedade se vê livre das amarras da "moral".

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Uma nova teoria, ou quiçá lenda, começa a ser construída. Na realidade, num coração não cabe um único amor. Nem toda a gente acerta à primeira. Há quem passe uma vida inteira à procura do grande amor. Não é que seja impossível encontrar "o tal" à primeira tentativa, é quase. É como ganhar o euromilhões. Existe sempre quem não nasça afortunado.

A sorte constrói-se e o amor também. Amar exige maturidade. Poucos são os que a têm aos 15, aos 18 e aos 20. O nosso "Eu" ainda é pouco conciso. Talvez a culpa do primeiro amor não dar certo passe por aí. Precisamos ainda de crescer. Queremos tudo e não queremos nada. Não sabemos bem que caminho seguir. Somos ingénuos. Crianças. Aventurámo-nos e depois sofremos como loucos. Pensamos que é o fim de tudo. É um drama grego. É o primeiro amor.

Que bom é já não estarmos presos a uma sociedade da Idade Média, onde o primeiro tinha que ser obrigatoriamente para sempre.

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Agora, percebemos que muitas vezes se confunde paixão com amor. Que o coração tem a capacidade de se regenerar vezes sem conta. Que podemos amar dezenas de vezes, mas nunca da mesma maneira. Que o casamento não significa "para a vida", porque o mais importante é ser feliz. Já não existem tantas princesas presas a fantasias, nem príncipes. O espírito de sacrifício está em vias de extinção. Acabaram-se as vidas presas.

É assim que precisam de pensar todas as mulheres e todos os homens, que vivem enclausurados numa relação de aparência. Os números de casos de violência doméstica, em Portugal, são todos os anos impressionantes. Não sei se é pela falácia do primeiro amor, ou se é por falta de amor-próprio. Apenas sei que não é esse o caminho a seguir. De muitas dessas relações nascem filhos, que um dia serão pessoas, adultos que precisam de saber o que é amar e o que é ser amado. Um processo que não exige colocarmos a pessoa que somos para segundo plano. Amor é plenitude.