Originalidade. Nunca esta palavra assentou tão bem a um artista. Em Paris, sempre tentou fugir da normalidade ou de normas pré-concebidas dentro do universo da arte… Seguir o mesmo não fazia parte da sua postura, pelo contrário, Amadeo procurou sempre outras técnicas e formas de pintar, experimentando tudo. Integrando-se neste ou naquele movimento, ou em nenhum, como preferirmos. Era um artista "sem rótulo".

No quadro "coty" (ver imagem) é bem visível essa interdisciplinaridade de Amadeo. Esta obra espelha a característica mais vincada e adorada do amarantino, um artista não com um estilo específico, mas sim com vários, onde junta várias "disciplinas" numa só pintura.

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Até apresenta elementos de uma corrente que ele, pelo que se sabe, nunca conheceu, o Dadaísmo. Este facto prova que Amadeo estava sempre "muito à frente!" O facto de ser português vai influenciar a maneira como "recebe" as vanguardas da sua altura, como o Futurismo ou o Cubismo. O uso de algumas cores, de uma maneira constante, reflete uma paisagem, vistas, formações naturais, muito portuguesas. O que realmente distingue o cubo futurismo de Souza-Cardoso de todos os seus contemporâneos europeus é essa gama colorida totalmente inédita.

Em "coty" torna-se evidente a forma como o simbolismo das suas ilustrações, indiferente à coerência estilística e à lógica sintática, prossegue nas obras posteriores. Interiorizando o nome de um perfume francês, o quadro joga com diversas formas de representação da realidade e de percepção sensorial.

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Através da colagem, faz com que diversos planos do real se interpenetrem. O meio é o acoplamento, contrastante próprio do surrealismo. Deste modo cria-se uma tensão entre a realidade representada e a realidade real, entre a pintura e o (seu) objecto - cabelos, ganchos de cabelo, pedaços de espelho - com o objectivo de deixar entrever uma realidade "por detrás da realidade".

Joga-se com analogias formais, por exemplo, entre seios arredondados e o sexo feminino, teias de aranha e grades de janela, atrás das quais a mulher nua mantém prisioneira a sua vítima. O pintor faz malabarismos com níveis de ilusão, que se vão alterando ao executar o passo decisivo do cubismo: passar do "Trompe - L'oeil ao Trompe-L'espirit". Amadeo, uma luz que se apagou demasiado cedo.