O recente cancelamento da estreia do filme "The Interview" devido a pressões aparentemente causadas por hackers norte-coreanos voltou, novamente, a atenção do mundo para a Coreia do Norte. O regime autoritário de Pyongyang recusou quaisquer responsabilidades para com o incidente, e até ofereceu ajuda para identificar os perpetradores, mas a posição de Barack Obama mantém-se. O incidente levanta uma importante questão acerca da vulnerabilidade de bases de dados abertas à Internet e, inclusive, a novas possibilidades de guerra assimétrica. Aliás, a retórica norte-coreana relativamente aos Estados Unidos e seus aliados mantém-se, e ainda hoje Pyongyang afirmou que iria reforçar as suas capacidades nucleares em resposta a uma proposta da Nações Unidas para acusar esse regime de crimes contra a humanidade.

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Creio que este é um problema que deveria ser estudado em duas partes. A primeira relaciona-se com o regime norte-coreano e a sua natureza. É um regime que usa a fome, o medo e a propaganda de um modo agressivo, alimentando o culto ao líder e mantendo um estado de emergência constante. Isso implica uma postura agressiva para com os vizinhos, alimentada pela paranoia acerca de uma destruição iminente por forças externas. No entanto a paz armada é mantida por um exército obsoleto em materiais e táticas e, acima de tudo, pela pressão chinesa, e os dirigentes norte-coreanos estão conscientes disso. Daí o investimento num arsenal nuclear, o dissuasor definitivo que promete a aniquilação de pelo menos uma grande cidade, mesmo que o regime caia. O problema da bomba atómica é que, uma vez lançada, será também a destruição de quem a usar primeiro.

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Ninguém permitirá a existência de um estado capaz de atacar outro com tais armas.

Portanto, livre de quaisquer outras possibilidades utilizáveis, Pyongyang vira-se para uma arma cujo uso tem permanecido limitado até ao presente: a ciberguerra. Neste mundo ligado em rede, esta é uma capacidade ofensiva que parece atraente para estados com poucos recursos e muitos inimigos. Mesmo assim, o mito de que um ataque cibernético garante o anonimato do agressor aparenta ter sido deitado por terra com eventos recentes, como o vírus americano que infetou as centrais nucleares iranianas, ou o ataque à Sony.

No entanto, apesar de esta arma não poder ser usada sem a possibilidade de futuras retaliações, existe uma outra faceta para a mesma, que creio ser deveras preocupante, e aqui entro na segunda fase deste argumento. A questão é: se vivemos num mundo ligado em rede, o que aconteceria se alguém fizesse um ataque geral às suas principais ferramentas? Se alguém conseguisse desativar o Facebook, o Gmail, bancos, comunidades artísticas, etc.? Que efeito isso teria para muita gente, para negociantes e, sobretudo, para livres-pensadores e as multidões que vivem da Internet? Afinal, um dos grandes argumentos contra o controlo da Internet pelos governos não é a consequente destruição do ganha-pão de muita gente? Esta seria a derradeira arma anticivilizacional.

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No caso da Coreia do Norte, esta poderia uma ofensiva com grandes implicações para o seu inimigo. Para o paranoico em mim, seria também a arma definitiva para quem quisesse dar um golpe terrível na liberdade de expressão a nível mundial, e aí até creio que Pyongyang seria a menor das nossas preocupações.