A indústria musical é, literalmente, um bicho de sete cabeças. A forma como todo o negócio nas últimas três décadas praticamente ruiu, se adaptou a novas realidades, foi reconstruido e reconfigurado e se apresenta hoje é digno de um verdadeiro filme de ficção científica. Ou terror, dependendo da perspetiva. A verdade é que praticamente nada, hoje em dia, funciona na indústria musical como funcionava há três ou quatro décadas atrás. A começar pelo consumo - feito em aparelhos cada vez mais portáteis, interativos e digitais - até à produção, que privilegia uma oferta artificialmente perfeita, muitas vezes cínica e que em última análise deixa a #Música e o talento como pormenores sem importância.

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Têm sido cada vez mais frequentes os episódios de "fugas" para o mundo online de ficheiros originais de gravações de vozes de artistas conhecidos, tal como foram originalmente feitas. Courtney Love ou Britney Spears são apenas dois dos casos mais mediáticos. E o que elas revelam são vozes absolutamente fora do tom, sem qualquer tipo de preocupação harmónica, que depois são "passadas" num aparelho chamado Auto Tune que, como o próprio nome indica, corrige e modula os sons vocais colocando-os no tom certo e dando-lhes um padrão coeso e estabilizado. Este aparelho, usado em praticamente todos os estúdios de gravação e em todas as produções de música "moderna" permite que, literalmente, qualquer pessoa possa ter uma boa voz e não desafinar. Ao mesmo tempo, faz com que os artistas "com alma" e com vozes únicas, muitas vezes imperfeitas de um modo muito pessoal (Bob Dylan, por exemplo), tendam a desaparecer, em favor de uma geração de cantores todos em busca do mesmo tom, sem qualquer característica de unicidade.

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Por outro lado, a massificação destes artistas, ajudada pela tecnologia que permite que qualquer pessoa possa gravar um disco a um baixo custo, inunda o mercado discográfico com uma oferta tão massiva que é impossível ao consumidor perceber, no meio de tantas propostas, aquilo que realmente é bom e tem qualidade.

Ao vivo as coisas não são muito melhores. Madonna é a rainha do playback em palco, optando por coreografar as suas músicas em vez de cantá-las, cobrando ao mesmo tempo muitas dezenas de Euros pelos ingressos para este tipo de "espetáculo". A prática tornou-se comum em grande parte das estrelas pop e, no meio televisivo, é uma questão monetária e de segurança que muitos artistas aceitam para poderem ter exposição global. Michael Jackson já o tinha feito em 1983, no tema «Billie Jean», no programa de TV Motown 25: Yesterday, Today, Forever, mas quando os próprios Red Hot Chili Peppers atuam no intervalo do Super Bowl com os instrumentos manifestamente desligados, a coisa atinge limites de absurdo. Quando o público deixar de acreditar que o que vê e o que ouve é talento puro e não um rude golpe de teatro, quem vai fazer com que a indústria musical continue a estar ligada aos ventiladores que lhe permitem viver?