"China reconhece ter executado um adolescente por engano." É tudo mau, nesta frase. É mau o "executado". Piora com o "adolescente". Torna-se absurda com o "por engano". Alguém dirá : (…) salva-se o "reconhece". Não, não salva. "China", que seria de facto a única palavra aproveitável, deixa de o ser, por executar. Ponto.

Eu sei que não precisaria de ter escrito ponto, por extenso - está lá o pontinho. Mas é conveniente, sim, porque um pontinho, mesmo que final, não enfatiza que a enormidade termina na execução. O complemento indireto - o quem - é irrelevante. O complemento circunstancial de modo - o por engano - não parece, mas é irrelevante.

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Ambos os complementos, tendo toda a importância e dimensão, não têm nenhuma.

Dos dois verbos presentes - reconhecer e executar, só o primeiro constitui notícia. O segundo é banal. Na China - sujeito. A China é um sujeito que executa, adolescentes e não só, e às vezes engana-se. Pronto. Ponto. Reconhecê-lo é que é a notícia. Achámos pois o verdadeiro predicado (sintagma verbal…) - aquele que de facto, nesta frase, engrandece o sujeito, que teve a honestidade, o pudor, o arrojo, a decência e elegância - tudo adjetivos qualificativos - de assumir o seu erro.

Já a pontualidade - outro adjetivo - não pode aplicar-se, uma vez que o jovem foi executado por violação e homicídio em 1996 - há dezoito anos…Mas o atraso não é assim tão grave, porque na verdade, só em 2005 (há nove…) é que um outro se lembrou de confessar o crime.

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Neste caso é também de evitar expressões do tipo "grande escrupulosidade no processo", porque o jovem - a criança, vá - declarou-se inocente até ao momento da execução, e a família foi incansável na apresentação de provas que contradiziam evidências tão irrefutáveis que vieram a refutar-se.

Já a coerência parece-me uma palavra que cabe: há dez anos que sistematicamente vem sendo negada a abertura de um novo julgamento. Post mortem, é claro. Mas pronto, agora, e assumindo provavelmente ventos de mudança, a China já admite reexaminar casos, digamos, confusos, e (pasme-se!), a abertura é tanta que até declara inocentes em novo julgamento os que foram condenados injustamente. Condenados e executados, porque a China é um sujeito que não deixa o predicado pela metade. De resto, e como temos visto com o caso das "formigas humanas" (alojamento urbano em condições indignas), o país mais populoso tem uma longa marcha pela frente até alcançar um nível decente de respeito pelos Direitos Humanos.

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Hugiiltu era da Mongólia e hoje na sua cidade, Hohihot, o vice presidente do tribunal pediu desculpa aos pais e segundo algumas notícias, a indemnização em yuans foi o equivalente a 3900 euros, mas isso eu não comento porque sou mãe de família e não me convém entrar em obscenidades (refiro-me ao pedido de desculpa, não aos yuans…). E nem é necessário comparar este valor com os milhões que pagam os cidadãos mais abastados desse país para "fugirem" para a Europa, com todas as suspeitas associadas de corrupção, como temos visto com o caso dos Vistos Gold.