É depois da passagem de um tufão que, olhando os destroços, nos damos conta de que, se calhar, o que tínhamos como sólido e indestrutível era mais frágil do que pensávamos. Olhando o que sobrou, talvez vejamos para lá do que víamos antes. Depois do tufão que foi a prisão preventiva de José Sócrates, ex-primeiro-ministro de Portugal - amado e odiado com a mesma intensidade -refiro-me a Sócrates, não a Portugal (ou sim?) - estamos a sacudir a poeira desse choque. Estamos a recompor-nos, tanto do conteúdo em si (alto responsável eleito com uma maioria absoluta, acusado de coisas pesadas como branqueamento de capitais, evasão fiscal e corrupção), como da forma: uma captura mediática, à noite, emocionalmente brutal, que minha filha, adolescente, comentou inesperadamente com um lacónico: "Estou a pensar nos filhos dele".

Nestes destroços surge a notícia de que "Supremo decide hoje sobre a legalidade da prisão preventiva de Sócrates".

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Num macabro casamento mistura-se a outra notícia já de há dias, da possibilidade de que, em casos comprovados de imensa complexidade, como este, a referida prisão preventiva poder elevar-se a meses… anos… E depois? Depois afinal verifica-se que não foi bem assim, que tudo tinha explicação, ou que nem tudo tinha explicação, mas que algumas coisas tinham; que aquele documento foi forjado, que aquela acusação não tinha fundamento, de que as verbas eram menores, de que … sim, eu sei que neste momento alguns estarão a pensar que eu acredito no Pai Natal e na Alice no seu país de maravilhas e naquele beijo redentor do príncipe da Bela Adormecida. Mas não. É precisamente porque a minha visão do mundo não está doce, é justamente porque eu sei que a realidade pode ultrapassar a ficção; é por isso que eu sinto frio nestes destroços que me fizeram ver o que estava esfumado antes do tufão.

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Há que ter cuidado com o irreversível. Os dias que se perderam e que não se viveram, não voltam. Erros judiciais existem. Os tribunais estão cheios de evidências que se revelaram irrelevantes. A nossa memória está cheia de inocentes assim declarados depois da forca. Tomei consciência, por causa destes dias nos quais circulei em destroços, que na dúvida, posso ser presa, não por algumas horas, ou dias, mas por muito tempo. Não só por ser quase de certeza uma sociopata violenta ou um violador compulsivo (esses às vezes até aguardam julgamento em liberdade e, por acaso, com esses é que eu tenho medo de subir no elevador!), mas porque o meu processo demora muito a ser estudado e enquanto isso, na dúvida, eu fico presa.

De novo sei que neste momento alguns estarão a dizer que, neste caso, tanta preocupação é irrelevante porque, com tanto fumo, com certeza teve fogo. "Ele colocou-se a jeito…". Talvez, mas lembro-me de uma sessão que tive com jovens alunos sobre pena de morte na qual um, mais ortodoxo, me disse que gente de bem não se vê envolvida em confusões e, se isso acontecer, todas as provas indicarão a sua inocência; enquanto na paixão da sua juventude argumentava isto, eu coloquei discretamente a minha caneta de marca na sua mochila e simulei por minutos o seu desaparecimento e a sua incriminatória descoberta.

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Foram minutos longos para ele. Teria sido penoso para ele, em prisão preventiva, defender-se de mim. Não é bem com o Sócrates que eu estou preocupada, é comigo, como cidadã. É egoísmo. É autodefesa. Há destroços arrepiantes: é que Sócrates, para já preso, culpado ou não, posso ser eu. Os filhos dele podem ser a minha filha. #Justiça