Há pessoas que nasceram para contrariar. A minha mãe costumava dizer que eu era uma delas. Espírito de contradição era o que ela me costumava chamar. E com alguma razão. Sempre que oiço ou vejo algo de absolutamente novo, o meu impulso primário é a negação, a rejeição, a discórdia.

E como eu há muita gente. Creio que é humano, é uma questão de proteção, o tal medo do desconhecido... Depois dessa reação primária há vários tipos de pessoas que lhe dão, naturalmente, continuidades diferentes. Por exemplo, há aquelas pessoas que cultivam essa forma de estar por sentirem que ela os exclui da maioria, da "carneirada", do "povinho" digamos assim.

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Depois há aquelas que se sujeitam ao medo e aí ficam, paralisadas, sentindo sempre esse tremor, essa náusea perante o que não conhecem. Há também os que conseguem superar tudo isso e têm a humildade suficiente para indagar sobre, para ir mais fundo, para conhecer e até, se for caso disso, para passar a fazer parte. Esses são os que crescem.

Os que se misturam são os que crescem, porque os seus horizontes acabam por se alargar e ver as semelhanças que existem em todos nós. Os que se misturam são aqueles que aprendem a amar tudo o que é humano e que são capazes de compreender o incompreensível.

Existe uma presunção limitadora em todos aqueles que se consideram elite, tal como existe um medo limitador em todos aqueles que se deixam petrificar. Na verdade, tudo me parece ser produto do medo - só a manifestação muda.

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O medo de enfrentar os olhares, as críticas, as opiniões alheias forçam-nos, muitas vezes, a adoptar uma posição de falsa superioridade que se manifesta em atitudes de desprezo por quem nem sequer se conhece.

Ontem aconteceu-me algo assim. Despistei-me numa autoestrada. Andei para lá às voltas até o carro se imobilizar em sentido contrário. Tive Deus comigo, porque não embati contra nenhum dos rails e ninguém embateu contra mim. As viaturas que vinham atrás tiveram tempo de parar e esperar que a minha se imobilizasse.

Toda a tremer, tentei voltar a pôr o automóvel a trabalhar - em vão. No meio de uma certa confusão, vi dois indivíduos de aspecto suspeito virem direitos a mim. Indivíduos diferentes de mim. Eles vinham a correr e eu senti-me ameaçada!

Saí do carro e, sem largar a porta, disparei que estava tudo bem que não precisava de nada. De seguida entrei no carro e tranquei-me por dentro. Ouvi através dos vidros fechados todos os insultos que me largaram. Foram muitos! Talvez despropositados, mas quem sou eu para imaginar sequer o que eles viram em mim?! Nem eu nem eles nos demos oportunidade de nos compreendermos, de nos conhecermos!

É verdade que não somos todos iguais.

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Tal como é verdade que não temos de gostar de igual forma de toda a gente. Mas também é verdade que somos todos da mesma espécie e que, se aprendermos a amar essa espécie que é a nossa, os nossos horizontes abrir-se-ão, os preconceitos evaporar-se-ão e as nossas escolhas serão muito mais limpas, mais claras, mais nossas. #Educação