O arquivamento do caso dos submarinos é a prova de que - apesar dos bons sinais dados nos últimos tempos, com condenações históricas como as do caso Freeport, ou detenções não menos inéditas de figuras de proa da política nacional, como o ex-primeiro-ministro José Sócrates - a #Justiça portuguesa ainda tem um longo caminho a percorrer. Na Alemanha, houve condenações por corrupção. Dois ex-gestores da Ferrostaal foram condenados por subornarem funcionários públicos estrangeiros na venda dos submarinos a Portugal e à Grécia. O cônsul de Portugal em Munique foi condenado na Alemanha por ter recebido "luvas" destinadas a promover o negócio. Em terras helénicas também houve detenções.

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O ex-ministro da Defesa foi detido e condenado a oito anos de prisão por fuga ao fisco. E por cá, nada. Será que o dinheiro se perdeu no caminho?

Quais os motivos para que a investigação tivesse sido encerrada sem acusações? Segundo a Visão, a Justiça portuguesa deparou-se com duas dificuldades: a falta de meios para a investigação (haveria apenas uma especialista em operações financeiras complexas) e a falta de cooperação da ESCOM, cujo administrador veio agora - depois de o caso ter sido arquivado - admitir que gastou 2,1 milhões de euros para esconder o dinheiro. "Quisemos dificultar o acesso a essa informação e esperar por uma oportunidade para regularizarmos os impostos com melhores condições fiscais", admitiu Luís Horta e Costa em entrevista ao Expresso. "Achámos que seria complicado que se viesse a saber que houve uma distribuição de bónus à família Espírito Santo", acrescentou.

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Recorde-se que a ESCOM recebeu do German Submarine Consortium 27 milhões de euros pelos serviços de consultoria prestados naquele processo. Desses, 21 foram distribuídos como prémios pelos membros do conselho superior do Grupo Espírito Santo, três administradores e um consultor. Dinheiro que terá sido distribuído numa reunião familiar em que os membros do Conselho Superior do GES se queixavam do pequeno quinhão que lhes havia tocado e na qual Ricardo Salgado terá dito a célebre frase "só vejo aldrabões à nossa volta", mais tarde conhecida quando as escutas foram tornadas públicas.

Como diz Pacheco Pereira, podemos deixar de falar em crime, mas temos de continuar a falar de responsabilidades: porque, se o crime já não pode ser perseguido, pelo menos podemos exigir que um governo e políticos decentes exijam uma sanção pelas responsabilidades, por aquilo que custou muitos milhões aos portugueses. Não admira que, neste momento, "corrupção" lidere a escolha dos portugueses para palavra do ano.