Ele não conseguia respirar e nós ficámos sem respiração. Eric Garner era um cidadão americano de 43 anos do estado de Nova Iorque. Foi interpelado pela polícia por estar a vender cigarros soltos, já sem a embalagem comercial. Rapidamente a interpelação incluiu coação física e inexplicavelmente essa coação se tornou brutalizante. Foi no último verão em Staten Island e alguém teve a coragem de filmar e de colocar na internet para que, com perplexidade, pudéssemos assistir à mais desproporcionada medida de domínio.

Não se tratou de um confronto entre a polícia e assaltantes armados, onde, por pânico e precipitação de ambos os lados, tudo pode acontecer.

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Não. Foi a interpelação de um homem por parte de vários agentes que rapidamente o subjugaram sem necessidade de mais nada e sem reação (e nem poderia, porque estava sozinho, era obeso e estava já no chão com vários em cima). Poderia ter terminado aqui, com a instauração de um processo, e mesmo assim, a forma de detenção já teria sido excessiva. Mas não terminou.

Foi durante esse filme que o espanto dele - e o nosso - foi crescendo. "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar", "Não consigo respirar". Foram onze (onze!!!) as vezes que ele repetiu porque o peso dos agentes comprimindo seu corpo contra o chão não lhe permitia respirar.

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Depois parece que a alucinação coletiva de quem o dominou, mudou de nível e quando ele deixou de falar… começaram a ouvi-lo. Vieram paramédicos. Veio a autópsia declarando que a causa da morte foi mesmo falta de ar por compressão prolongada do pescoço.

Veio a dor imensa de quem o amava. Veio a loucura da mãe que decerto tantas vezes fez de tudo para aliviar sua dificuldade em respirar por ser asmático. Veio a saudade da mulher que talvez num daqueles tão doces disparates românticos lhe tenha perguntado alguma vez se respirava bem quando ela não estava. Veio a perplexidade de todos nós. E veio, há poucos dias, a não condenação do agente. Depois do que nós vimos. Chama-se Daniel Pantaleo e passa à História por nos ter sufocado a todos com a mais gratuita loucura, para lá, muito para lá do que a sua profissão enquadraria.

Os protestos varreram os Estados Unidos e depressa se estenderam a todo o Mundo, mas na verdade, não há muito a dizer, a não ser expressar o espanto coletivo. Ele era negro e o agente era branco e houve quem tirasse daí conclusões e organizasse protestos nesse sentido.

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Compreensível, mas na verdade, isso é pouco, desculpem-me mas quase irrelevante, perante o tal espanto, sem cor. Só incredulidade. Foi esse espanto que ficou registado em milhares de inscrições que foram surgindo em equipamentos desportivos, em paredes, em papéis que aos milhares foram sendo deixados por todo o lado, em roupas… tudo apenas com a ensurdecedora frase "I CAN'T BREATH" - Não consigo respirar… É essa frase que é sufocante. Há faltas de ar arrepiantes. Há pequenos filmes, como este que se tornou viral, que abalam a nossa fé no Homem. #Justiça