Para Honoré de Balzac burocracia é "o poder gigante dos pigmeus". Para qualquer mau funcionário do Estado ou simples operário de qualquer organização, o defeito ou o erro nunca é dele, os atrasos não são dele, são expedientes processuais a cumprir. Nova fórmula de tratar a burocracia. Quando as coisas emperram, ou querem que emperrem, e está na frente desse operário um ecrã de computador, sai a resposta: "Sabe, o sistema não permite".

O termo burocracia foi criado por Gournay em 1745, juntando "bureau" (escritório/secretária, em francês) à palavra "cracia", derivada do grego governar. Este conceito foi usado, na maioria das vezes, como termo depreciativo, aliás Gornay chamou-lhe muitas vezes, não burocracia, mas "buromania".

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Ainda nos nossos dias a burocracia impera, não tanto como era usual ver-se nas repartições públicas, onde os funcionários registavam tudo em livros enormes com canetas "douradas", munidos de manguitos (meia manga preta a colocar sobre a roupa em uso). Segundo eles, os manguitos serviam para não sujar as mangas da roupa, quando a finalidade seria não sujar os livros. Opiniões. Está a escrever quem usou manguitos, portanto sabe o que diz.

A criação da burocracia teve um fim inteligente e responsável. Tudo era registado e controlado, nada se poderia perder e muito menos dar origem à irresponsabilidade. A burocracia seria o sistema mais eficaz de gerir qualquer organização. Talvez o sistema burocrático mais antigo que se conhece será na China Imperial, que tratava todos os assuntos respeitantes à governação, termo hoje em desuso, impondo-se a governança, dito em português, porque em qualquer reunião de "experts" o termo usado é "governance".

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É mais lindo e soa melhor.

Apesar de reconhecer algumas falhas, especialmente na vida social, para Weber, na burocracia existe autoridade hierárquica, regulamentos e conduta eficaz dos funcionários. Os trabalhadores são-no a tempo inteiro, há separação entre o serviço e a vida privada e os funcionários não são donos das "ferramentas" em que operam. Ora, se analisado friamente, a burocracia colide com os tempos modernos, começando pelo fim, o operário usa normalmente o seu computador portátil, não trabalha exclusivamente naquele local a tempo inteiro e, por vezes, não conhece a sua pirâmide hierárquica. Portanto tem somente de produzir, cumprindo metas, desconhecendo regulamentos.

Hoje é fácil, em qualquer serviço público, constatarmos que o funcionário, quando não sabe, pergunta ao colega. Em burocracia plena, ele consulta as normas e regulamentos. Sendo omissos, coloca a questão ao superior hierárquico. Na minha vida profissional, sempre que posso e necessito, em qualquer parte do país, dirijo-me às Câmaras Municipais para solicitar determinado serviço, e constato que a burocracia despareceu, os grandes livros de registos também, a simpatia impera, mas, infelizmente em muitos casos, a ignorância ou falta de formação também impera.

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Resumindo: os inputs e outputs em qualquer computador mais não são que simples actos burocráticos. O computador não inventa, rege-se por normas perfeitamente rígidas, definidas e inalteráveis por simples funcionário. Hoje impõem-se organigramas em qualquer organização, há horários rígidos, balcões únicos, assuntos estanques a tratar. Isto é burocracia. O título burocrata atribui um rótulo pejorativo, normalmente ao mau funcionário, quando poderia ser considerado um título de trabalhador e cumpridor.

Lembro-me que, em certa repartição pública, determinado funcionário obrigava o utente a esperar minutos/horas enquanto ele tirava do bolso a sua parker, os óculos de cordão, lia e relia o documento e somente depois debitava lentamente e com estilo surrealista uma assinatura digna de exposição na melhor das galerias de Paris. Finalizando, como comecei, a culpa não é da burocracia, mas dos "pigmeus" que a usam para agigantar-se.