É famoso o reparo atribuído a Robert Gascoyne-Cecil, Marquês de Salisbury, segundo o qual o erro mais comum na política é manter-se preso a vestígios de políticas já mortas. Esta tendência parece evidenciar-se na estratégia dos Estados Unidos na nova ordem, uma vez que, apesar das diferenças entre sucessivas Administrações, todas preservaram uma robusta presença militar americana no estrangeiro (OTAN na área euro-atlântica e o Sistema de São Francisco na Ásia-Pacífico) como primeira fonte da proeminência americana e da segurança e estabilidade internacional. Por outro lado, reorientaram até certo ponto o containment para a China. Neste sentido, os EUA comportaram-se como uma potência status quo.

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Estes aspectos são apenas parte de uma estratégia global americana muito mais vasta e diversificada. Efectivamente, a fim de promoverem os seus objectivos e de maneira a ultrapassarem os seus dilemas internos e externos, os EUA vêm implementando uma autêntica estratégia "cocktail" que consiste, resumidamente, numa amálgama de várias políticas e estratégias:

1. Primazia: Empregando todos os mecanismos disponíveis e ao seu alcance para alcançar a hegemonia e liderança global;

2. Contenção: Conter a ascensão, o poder e a influência de outras potências para um nível que possa representar uma clara ameaça à supremacia americana;

3. Equilíbrio: Procura pela manutenção dos equilíbrios geopolíticos regionais, em especial, com a Rússia e com a China;

4. "Enlargement": Promover a expansão do liberalismo económico, democracia e estado de direito, comércio livre, direitos humanos, segurança humana e demais valores universais;

5.

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"Carrot and Stick": Recompensando ou punindo determinadas condutas de outros governos, através de incentivos às boas práticas com reconhecimento político e ajuda económica, segundo critérios prévios de elegibilidade, ou impondo/ameaçando impor sanções e medidas restritivas e até dispondo-se à intervenção militar.

A "estratégia cocktail" é, assim, o resultado do chamado hedging baseado numa postura que, além de ser cautelosa, difusa, omni-direccional e multi-instrumental, contempla ainda outras duas características essenciais, a flexibilidade e o pragmatismo, presentes em todas as Administrações americanas na nova ordem. A Rússia e a China são, claramente, os objectos centrais do hedging americano. Finalmente, o idealismo e a realpolitik são dois traços que se combinam na política externa dos EUA - exemplarmente expressos numa alocução do então Conselheiro para a Segurança Nacional de Bill Clinton, Antony Lake (1993), que afirma que é necessário promover a liberdade no mundo porque esta reflecte os valores que são americanos e universais - são apenas um factor fundamental para poder determinar se os EUA devem actuar de modo multilateral ou unilateral, e esses é que são os interesses americanos. Resta saber qual é que funciona melhor.