A Segunda Liga actual, além de ser um campeonato super-competitivo, é também um exemplo do desgoverno em que se encontra o futebol profissional. O campeonato é provavelmente o mais longo de todos os campeonatos profissionais da Europa. São 22 equipas, o que faz com sejam 42 jornadas. A Primeira Liga, com 18 equipas, tem apenas 34 jornadas. Isto significa que são 8 jornadas de diferença - cerca de 2 meses, na prática.


Um adepto que queira acompanhar a sua equipa de perto tem de estar atento a jornadas a meio da semana e sempre que exista uma oportunidade ou uma vaga no calendário. 42 jornadas num ano que só tem 52 semanas é uma verdadeira maratona competitiva que vem tornar a realidade desportiva um pouco estranha. De resto, as assistências continuam a ser deploráveis. Se muitos jogos da Primeira Liga revelam esta tendência, os da Segunda não melhoram. O facto é que os jogos de futebol que não envolvam os três Grandes e alguns clubes da Primeira Liga, actualmente, não atraem espectadores pela qualidade do futebol praticado ou pela emoção do profissionalismo. Para isso, o adepto subscreve um canal de TV que tenha o futebol inglês. O adepto vai pela carolice, porque existe um grupo de amigos ou uma comunidade local com alguma ligação ao clube. Mas isso, no Portugal actual, não chega para garantir estádios cheios - nem na Primeira Liga, quanto mais na Segunda.


A somar a isto, há as distâncias geográficas. A Segunda Liga, tal como a Primeira, é uma competição nacional. Isto significa que o Desportivo de Chaves joga contra o Olhanense e o Portimonense, e que clubes de recursos limitados como o Atlético "passam a vida" a jogar nos distritos de Porto e Braga, onde está boa parte dos adversários. Veja-se o caso do Académico-Farense, do passado fim-de-semana, vencido pelo clube da casa por 1-0. De Faro a Viseu são cerca de 525 quilómetros; esta foi a distância que os jogadores tiveram de percorrer, já para não falar de eventuais adeptos que tenham também acompanhado a sua equipa. O jogo teve 400 espectadores nas bancadas.


O carácter nacional será razoável num campeonato profissional de primeira categoria; mas numa competição com 22 equipas, qual é o motivo razoável que impeça uma divisão em séries - precisamente como foi feito com o Campeonato Nacional de Séniores? Não seria impossível até trazer mais duas equipas e criar as séries Norte e Sul, com 12 equipas cada, e com algum tipo de play-off no final a decidir a promoção e a conquista do título.


Esperemos que, com a eleição de Luís Duque para a presidência da Liga e uma nova direcção, surjam ideias de bom senso para a organização do futebol profissional. Se é questionável a sustentabilidade, a longo prazo, de dois escalões de futebol profissinal, é pelo menos necessário que este campeonato absurdamente longo seja adaptado à realidade.