Já foi há 10 anos, mas lembro-me perfeitamente, como se fosse ontem. Era o dia a seguir ao Natal. Ainda na ressaca de todos excessos, mais ou menos desculpáveis para a época, desci as escadas, já a manhã ameaçava virar tarde. Liguei a televisão e sintonizei num dos canais de informação. Rapidamente me apercebi que algo grande se tinha passado. Só não tinha noção da dimensão. Acho que ninguém tinha.

Morte, destruição, tragédia, dor, calamidade, drama, horror. Esta meia dúzia de palavras era repetida vezes e vezes sem conta. E, mesmo assim, era pouco para descrever aquilo que se passava. A única coisa certa era que um maremoto, seguido de um tsunami, tinha afectado (devastado?) grande parte dos países banhados pelo Oceano Índico.

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Depois do abalo, de 9,3 na escala de Richter, ao largo da ilha de Sumatra, na Indonésia, três ondas gigantes irromperam pelo sudeste asiático e alteraram para sempre a paisagem local. Hoje, sabemos que foram mais de 230 mil as pessoas que morreram naquele fatídico dia, em 14 países. Foi um dos mais devastadores desastres naturais da história.

Ainda assim, continua a ser difícil ter uma noção da tragédia. O que são 230 mil almas? Quase quatro estádios da Luz cheios? Três noites de Rock in Rio à pinha? Duas Coimbras? É algo inimaginável. Mas não foi preciso imaginar. Aconteceu mesmo. Apercebendo-se do que estava em causa, as televisões apressaram-se a despachar enviados especiais para o local. De todos, optei por seguir, religiosamente, a Daniela Santiago, da RTP. Não só por ser loira e gira, mas por ter um jeito muito próprio de contar o que estava a ver, de nos fazer sentir parte de uma história que queríamos nunca ter vivido mas, ao mesmo tempo, não queríamos perder.

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Algum tempo depois, a jornalista foi à Escola Superior de Educação de Coimbra, onde eu estudava Comunicação Social, para uma palestra. Contou-nos todas as dificuldades que viveu, descreveu-nos o cheiro a morte que sentiu, revelou-nos a impotência que experienciou, mas também nos impressionou com histórias e mensagens de esperança. A que ficaria para a história foi a do pequeno Martunis, o menino indonésio que foi encontrado com a camisola de Cristiano Ronaldo, 21 dias depois de o maremoto ter devastado o sudeste asiático.

O seu relato impressionou-me de tal maneira que, caso ainda houvesse algum resto de dúvida na minha mente sobre o que queria ser, desapareceu de imediato. Ser jornalista é (também) isso: é relatar as tragédias sem explorar a dor de quem as viveu, é encontrar exemplos de esperança onde é o desespero que reina.