Tugce Albayrac foi brutalmente agredida quando saía de um restaurante em Offenbach, perto de Frankfurt na Alemanha, onde residia. Minutos antes, no restaurante, ela tinha ido em socorro de duas adolescentes que estavam aflitas ao serem interpeladas sexualmente, de forma abusiva, na casa de banho por três homens. Quando saiu, um dos agressores esperava-a e bateu-lhe violentamente. Hoje, Tugce é bandeira de solidariedade, há vigílias que celebram a sua coragem, o desabrido do seu gesto, a generosidade da pouca idade que tinha - a mesma idade que a impediu de defender-se quando defendia.

Será que no recreio da escola já se tinha destacado dando a cara, sem medo, por colegas? Será que os pais, os professores, sempre lhe disseram que deveria ajudar os mais fracos? Captou a mensagem melhor que outras crianças? Nasceu assim? Carga genética? Que livros leu, que filmes viu, que amigos teve que a fizeram assim? Que ídolos teria? O que a comovia? Que causas a faziam militante? Talvez nenhumas.

Publicidade
Publicidade

Provavelmente foi movida apenas pela sequência lógica de ajudar quem pede ajuda, o que deveria afinal ser a cronologia linear. A única.

Há uma petição de milhares de assinaturas para que Tugce Albayrac seja reconhecida com a Ordem de Mérito. A comunidade turca residente na Alemanha, à qual Tugce pertence, faz dela um trunfo e, no entanto, para Tugce talvez a sua atitude tenha sido a óbvia, a indiscutível. Foi viral a onda de admiração que aquela jovem tão fresca e tão gira e tão moderna e tão tudo para ser feliz, causou. Houve uma emoção coletiva, uma inesperada primavera na desolação gélida da notícia de três homens a aterrorizarem jovens indefesas. Renasce uma fé qualquer quando achamos que nós, afinal, podemos ser assim como ela.

Mas nos jardins mais bonitos, pode haver cobras venenosas, deslizando, balançando os caules das flores, aparentemente em nada alterando a beleza, mas deixando a sua presença, cobarde mas inequívoca, fazendo-se notar porque ao existirem nos impedem de passear no jardim… Há cobras em forma de frase.

Publicidade

Houve frases que, disfarçadas de comentários nas redes sociais - aquelas coisas anónimas que podem destruir o que se escreveu antes - que foram pedras de gelo na fervura do apaixonamento que a atitude de Tugce provocou:

- "Temos de reconhecer que houve, por parte da rapariga uma certa falta de bom senso(…)";

- "(…) mas também, estaria à espera de quê? Pôs-se a jeito…";

- "Na verdade eles não a mataram, bateram-lhe com um bastão, e ela caiu; o azar é que ao cair, bateu com a cabeça no chão e bateu mal".

Rastejantes… cuspideiras… largando uma nuvem radioativa que nos contamina com o que não queremos; deixando o ar impregnado com a ideia de que o altruísmo tem de ser muito bem pensado, de que O Bem não nos deve fluir naturalmente; paralisando-nos com o entorpecente de que para além de vivermos com cuidado, devemos viver com cuidadinho. Para os pais de Tugce, tão irrelevante tudo isto, agora, tão pequeno a comparar com o que sentiram quando, no dia em que festejariam o 23.º aniversário da filha, olharam-na e souberam-na imensamente maior do que o corpo que lhe deixaram para viver e mandaram desligar a máquina que já não a mantinha viva como ela merecia.

Publicidade