"Parado e atento à raiva do silêncio/ de um relógio partido e gasto pelo tempo/ estava um velho sentado no banco de um jardim/ a recordar fragmentos do passado..."

É com esta estrofe que começa a música "Velho" de Mafalda Veiga e é também com estas palavras que quero começar este meu texto. Paralelamente a um aumento da oferta de cuidados para esta faixa etária, vemos cada vez mais um envelhecimento solitário, longe de familiares... Tal como referi no artigo anterior, temos vindo a assistir a um aumento da oferta dos cuidados geriátricos, de lares, asilos, casas de repouso... No entanto, cada vez mais as pessoas envelhecem longe da família e partilham os seus dias com aqueles que são pagos para cuidarem de si!

Cada vez mais na cultura ocidental procura-se ocultar sinais de velhice e os velhos são vistos como seres que nada mais têm a dar à sociedade.

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Ao invés do respeito por uma vida repleta de conhecimento e sabedoria, e de "beber" as aprendizagens e histórias que os velhos construíram ao longo da vida, tende-se para a frivolidade dos dias e das noites, tentando fugir e fingir que a velhice nunca nos chegará. E nesta loucura dos dias, lá permanecem os velhos "depositados" em lares e asilos ansiando ver, a cada vez que a porta do lar se abre, um rosto que lhes é conhecido e próximo.

O "pagar cuidados" não substitui o "estar com"! É um dever moral e cívico que os velhos tenham todas as condições de higiene, alimentação e saúde, mas não é menos importante que não vivam uma solidão que agudize os seus dias e torne mais pesadas as suas horas.

A sabedoria popular, as histórias e lendas, as músicas e receitas que marcam a nossa cultura estão depositadas nos velhos e, se continuarmos a desrespeitar a sua sabedoria e conhecimentos, iremos perder parte da nossa identidade enquanto povo, que faz de nós precisamente aquilo que somos.

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Ao fugirmos da velhice estamos a fugir do nosso passado e do nosso futuro, tendendo assim para uma descaracterização enquanto povo! Como refere ainda Mafalda Veiga: "sabes eu acho que todos fogem de ti p'ra não ver a imagem da solidão que irão viver"...