Quando se diz o óbvio, se repetem muitas vezes as mesmas coisas ou se fazem perguntas desnecessárias - são estas as bases para as conversas de "chacha". Confesso que me deixam impaciente. A maior parte das vezes sem saber o que dizer, porque nelas vejo sempre uma necessidade de comunicação, um apelo, um "olhe que eu estou aqui". A minha primeira reacção é negativa. O meu cérebro grita mais alto do que o coração para me alertar para a ignorância ou para a estupidez. Aí está uma rasteira para nos afastar um pouco mais da compaixão, do entendimento do outro, da humanidade.

Os gritos de alerta são normalmente muito mal entendidos ou não entendidos de todo.

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Com resultados contrários aos pretendidos, vão acumulando em quem ouve um certo rancor e desprezo por quem parece não ter coragem de ser frontal e dizer logo ao que vem. Mas a verdade é que a frontalidade é uma das características da segurança, da confiança em si. A frontalidade é apanágio de quem se sente com o tamanho ideal, satisfeito com a vida, feliz consigo mesmo. Logo, nunca poderá existir em quem carece de forma aguda de atenção e carinho.

Dizer que não existe nada mais desprezível do que um adulto infantilizado é talvez um exagero. Mas do ridículo não se livra, pelo menos aos meus olhos. A não ser, é claro, que a infantilização se dê em contexto específico e propositado como quem brinca só hoje, agora, neste momento. Um adulto que reage como se tivesse chegado ontem ao mundo leva a minha paciência e consideração aos limites.

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Afinal, para alguma coisa deve servir o andarmos por cá. Nem que seja para aprender.

Mas esta teoria não parece aplicar-se a uma grande parte dos idosos. Esta minha afirmação "uma grande parte" não é o resultado de nenhum estudo ou investigação. É tão só a minha percepção sempre que mergulho no seu mundo.

E não são todos os idosos. São os idosos portugueses. Aqueles que viveram debaixo da alçada do Estado Novo. Que leram pouco ou nada. Que cresceram a ver programas televisivos de "chacha". Que se deixaram manter numa ignorância e num atraso típicos de um país fechado e pequenino. A maior parte dos nossos idosos é pequenina, como o país onde cresceram e como as conversas de "chacha" que vão tendo. E se fosse esta a explicação - tudo ficava explicado. Mas não é!

O Estado Novo não se limitou a manter o país fechado na ignorância. O Estado Novo tomou conta das pessoas e uma pessoa que se faz adulta debaixo da alçada de um Estado, de um pai ou de um marido, nunca chega a crescer! E como nunca chega a crescer, nunca chega a ser pai ou mãe, mesmo que tenha filhos.

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E nunca deixa de ser filho ou filha, nem que seja dos filhos. A inversão de papéis é mais comum do que aquilo que se pensa e são os preconceitos e o amor que levam as pessoas a aceitá-la.

Quanto aos preconceitos, eu prefiro ignorá-los. São fruto de mentalidades mais do que pequenas - mirradas. São fruto de uma (des)#Educação provinciana e manipuladora que se praticou neste país durante quase 50 anos. Não me venham dizer que é agradável passar a ser pai ou mãe dos nossos pais! Não me venham com a conversa de que lhes devemos seja o que for!

Só o amor deve servir de motor para cuidar dos nossos progenitores. Nunca a gratidão! Gratidão de quê?! De termos nascido? Mas afinal nós não nascemos para satisfazer uma necessidade deles, fosse lá ela qual fosse?

Eu amo os meus pais porque sim e não porque devo. O amor não é um sentimento que se invente, que se sinta por obrigação - ou existe, ou não existe. E só esse amor é capaz de reduzir a dimensão do fosso que existe entre a geração deles e a minha. Só esse amor é capaz de me dar a paciência que preciso para escutar conversas de "chacha". #Família #Terceira Idade