Ao mesmo tempo que o Ocidente viu uma enorme onda de solidariedade com os atentados de Paris, o Boko Haram, movimento paramilitar de inspiração islâmica semelhante ao Estado Islâmico, prossegue as suas operações. Surgem relatos de crimes, massacres e derrota ou fuga das tropas do governo da Nigéria e dos países vizinhos. Surgem também as reacções, por todo o mundo, contra o silêncio a que a situação é votada. Critica-se a hipocrisia do Ocidente que não dá a mesma atenção à Nigéria que aos cartoonistas de Paris. Surgem cartoons que mostram uma pilha de mortos ignorada por uma câmara que foca uma única campa europeia. Outros ilustram crianças nigerianas que se perguntam porque são assassinadas, se não têm lápis. Aqui, no Blasting News, também já falámos no assunto.

Na verdade, existem vários motivos para que o Ocidente não dê a mesma atenção à Nigéria que ao Charlie Hebdo. A proximidade geográfica, sim, e o facto de os ateus e os agnósticos sentirem que o ataque foi direccionado às suas próprias ideias e valores, também. Cabe a todos os que se indignam com o que se passa na Nigéria apontar esta diferença, sem dúvida. E com certeza que muitos dos líderes que estiveram em Paris têm um currículo duvidoso em termos de defesa da liberdade de expressão. Para não mencionar a própria França, cujo Ministério Público moveu um processo por delito de opinião a um humorista que só devia merecer desprezo, e não uma limitação à sua liberdade.

Mas importa saber se esta indignação com a Nigéria tem consequências práticas. A opinião da sociedade civil serve, afinal, para isso. Todos os que acusamos o Ocidente de estar ser hipócrita nesta questão, que medidas práticas vamos apoiar? Há tempos, todos colocámos na internet fotos com uma hashtag #bring back our girls. Dissemos ao mundo que estávamos contra o Boko Haram. Foi um princípio. Mas nada mais fizemos além disso. A esta altura do campeonato, é nítido que a Nigéria e os vizinhos têm dificuldades para controlar este problema.


Vamos ajudá-los? Vamos pedir aos nossos governos que enviem um exército para lá, para dispersar e derrotar o Boko Haram e repôr a ordem, se o governo da Nigéria pedir essa ajuda? Fazer uma petição, junto do governo dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, para convocarem as Nações Unidas - ou até avançarem sem elas, ao arrepio do Direito Internacional?


Porque, no fundo, é isso que está em causa. Muitos dos que criticam a hipocrisia do Ocidente desconfiam de intervenções militares desse Ocidente. Mas certamente reconhecem que não há outra alternativa eficaz. E embora sejam pouco falados, existem vários precedentes de missões de paz das Nações Unidas que tiveram sucesso. Uma das mais célebres foi a UNAMSIL, a missão da paz que esteve na Serra Leoa entre 1999 e 2006, com ordens para ripostar aos rebeldes da RUF que espalhavam o terror no país há quase uma década. 


Portanto, será tempo de, em vez de apenas criticamos a hipocrisia dos líderes e dos outros, apelarmos ao envio de tropas, tanques e drones americanos para o nordeste da Nigéria. E, em Portugal, debatermos também se deve o governo de Passos Coelho participar numa iniciativa desse género. As crianças nigerianas pedem-nos isso.