Se o arrependimento matasse, a fuga dos dois terroristas, que ainda decorre, já havia terminado há muito. Imagino as caras destes quando se aperceberam de que, ao invés de matar Charlie Hebdo, como pretendiam, publicitaram e tornaram o semanário conhecido internacionalmente e com mais força que nunca. Quando souberam que a revista iria ter o apoio financeiro do Estado francês para continuar e que na próxima semana irá lançar uma edição especial com uma tiragem de 1 milhão de cópias, aperceberam-se de como são insignificantes e ignorantes. " Matamos o Charlie Hebdo", ouviu-se enquanto fugiam do local do atentado. Para isso, teriam que matar todos os que defendem os alicerces da democracia.

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Esqueceram-se.

Doze pessoas morreram no pior ataque terrorista em solo francês nos últimos 50 anos. Porquê? Porque defendiam a liberdade de expressão, de imprensa e de informação como se da própria vida se tratasse, apesar de conhecerem todos os perigos e ameaças. Porque incomodavam muita gente com o seu humor satírico e "irresponsável". Morreram, mas fizeram-no de pé e firmes nas suas convicções até ao final. Defenderam o que acreditaram ser deles por direito, nunca cedendo, quando muitos o teriam feito nas suas posições. Por isso, serão sempre heróis. Por isso, serão relembrados para sempre.

Vítima de um fanatismo e fundamentalismo religioso, a redacção de Charlie Hebdo foi brutalmente assassinada. Em pleno coração europeu, o mundo presenciou um dos ataques mais horrendos dos últimos anos, ao que é a liberdade de expressão- um dos alicerces da democracia.

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Rapidamente, uma enorme onda de solidariedade e união formou-se nos quatro cantos do mundo. Se queriam retirar-nos o direito de nos informar, de pensar de forma diferente, de sermos livres, de existirmos: falharam por completo. Nós somos Charlie, porque defendemos aquilo que eles defendem, porque queremos ser mais.

Na democracia a discussão de ideias, os valores, os direitos são, inequivocamente, mais fortes que qualquer arma de fogo. Na democracia podemos ser contra, podemos ser a favor, podemos criticar e bater o pé aquilo com que não concordamos. Na democracia o poder das palavras supera o poder das armas. Os textos incomodam e ganham uma força inimaginável, quando livres. Se não vivesse em democracia, não poderia escrever este texto. Bem até poderia, mas se não agradasse a todos, correria o risco de levar um tiro. Posso dizer que sou um privilegiado. Que Sou Charlie.