Na principal rotunda dessa localidade do concelho de Cascais, em frente à igreja-matriz, havia uma taberna (como naquela canção inglesa dos sixties…). Uma tasca pequena. Pareceu-me que, em bebidas, pouco mais se consumia aí além do vinho e da cerveja. Ao passar por lá, era frequente eu olhar de relance para o seu interior. Um espaço exíguo, um balcão em forma de "L", uma ou duas mesas pequenas - se é que havia aí mesas… - e, em cima, na parede, um aparelho de TV. Até fiquei com a impressão que o único programa que passava nesse televisor eram jogos de futebol.

Mas o mais surpreendente de tudo era a grande quantidade de clientes, a qualquer hora do dia (só homens, nenhuma mulher), indício de negócio próspero, mesmo em tempos de crise.

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Reparem: uma tasca, em local tão próximo da capital, no século XXI, com abundante clientela. Conseguem explicar isso facilmente?

Contudo, certo dia, ao passar por ali, verifiquei que a taberna já não existia, estando a ser feitas obras de remodelação desse espaço. O que é que se passa? O dono da tasca estará a ampliá-la, já que o negócio está próspero? Será que vai sair dali um estabelecimento mais nobre, do mesmo ramo (da restauração - designação curiosa)? Um bar (talvez com karaoke)? Confesso que até fiquei frustrado com a minha competência de avaliação negocial: afinal, aquele negócio não era o máximo, como eu pensara…

Mas não passaram muitos dias até conhecer o novo business. A lógica darwiniana da selecção natural, aplicada ao comércio, fez com que essa portuguesíssima tasca fosse substituída por… uma agência funerária! O que antes era uma taberna, um local de convívio masculino e prazer do comer e beber, para dar mais calor e cor à vida, virou negócio dos mortos.

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Local de tristeza!

Lembrei-me logo daquele fado-canção da Amália Rodrigues, "A Casa da Mariquinhas", em que um estabelecimento de fados se transformou, por força do destino, numa casa de penhores. Segundo as lyrics dessa composição, em tal espaço de cantorias e farras, onde no passado, invariavelmente, "estava alegre a Mariquinhas", montaram um negócio do qual os clientes saem como que mutilados, por terem sido aí espoliados, sem clemência, das suas jóias de reserva… De casa de fados a casa de penhores. De tasca a agência funerária. Paralelismo trágico.

Mais contrastante do que isso - desculpem lá a comparação - só se fosse a passagem de uma sex shop a casa funerária. Mas, aqui, intelectuais mais sofisticados até poderão achar que tais #Negócios não são contrastantes, se recorrerem ao pensamento do filósofo Georges Battaille, que considera, no seu livro "O Erotismo", que o culminar do desejo libidinal (core business da sex shop) é a própria morte. Esta mesma filosofia foi avançada, há vários anos, por um expert incumbido da selecção de filmes para um respeitável canal de TV do nosso País, para justificar a sua decisão de incluir no elenco dessas fitas a escandalosa obra de Nagisa Oshima, "O Império dos Sentidos" (em que um dos amantes do filme morre, durante um perigoso ritual por eles praticado).

Bem, foi aqui narrado um caso real e mais dois exemplos fictícios de negócios.

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Todos eles consecutivos, contrastantes e realizados no mesmo local físico. Poderemos sentir alguma dissonância cognitiva, ao assistirmos à passagem, no mesmo espaço físico, de um negócio mundano/profano para outro, dominado pelo sofrimento e feelings espirituais e existenciais.

Mas, ao fim e ao cabo, é tudo… just business…