Estreou há tempos no nosso país o filme "Variações de Casanova", do realizador Michael Sturminger, em que uma das empresas produtoras foi a Alfama Filmes, sendo Lisboa o local de filmagens. Não conhecia nem o realizador nem a produtora do filme.

Confesso que não vi essa obra cinematográfica e, por isso, em matéria de apreciação do conteúdo do filme fico por aqui. Tanto mais que não sou expert nesse domínio. A única expertise que angariei resultou da frequência, na minha juventude, do "Curso Intensivo de #Cinema" então ministrado no AR-CO (Centro de Arte e Comunicação Visual), de Lisboa, constituído por 24 sessões. E a formadora era - imaginem - a poetisa Ana Hatherly!

Mas voltando ao referido filme rodado em Lisboa, devo dizer que o mesmo me traz à memória, inevitavelmente, uma outra obra cinematográfica sobre o famigerado Giacomo Casanova.

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Foi realizada, nos anos 70 do século passado, por Federico Fellini. O papel principal foi atribuído ao actor Donald Sutherland, que muita gente, na altura, achou não estar talhado para interpretar a personagem do famoso galã libertino. Mas, aparentemente, o que o Federico pretendia era retratar o Giacomo à sua maneira, subjectiva. Daí o título da obra: "Fellini´s Casanova".

Aspectos superficiais relacionados com esse evento cinematográfico eram que o make up do Sutherland, para ficar com o look desejado - com a testa aumentada -- ocupava três horas por dia. E que, nos intervalos das filmagens, o mesmo Donald era visto a curtir, de automóvel, as artérias da capital de Itália, de chapéu, descontraído e leviano. O que choca com o seu habitual ar austero.

Mas, num registo mais sério, há que ressaltar o toque especial que Fellini pôs na personagem em causa.

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Que chegou a cair em depressão, fazendo uma tentativa de suicídio. Assumindo o filme certa carga psicanalítica, com o Casanova em busca da mãe… e esta a desaparecer facilmente da sua vista.

Lembro-me bem que, nesse tempo em que o filme foi lançado, Fellini foi entrevistado para uma revista francesa pelo famoso escritor de policiais, Georges Simenon, a respeito do mesmo filme. Como é que eu poderia esquecer a afirmação que, a dado momento da entrevista, Simenon disparou para o Federico: "Na minha vida, eu já tive mais mulheres do que você"?

Bem, mas já é tempo de voltarmos ao recente "Variações de Casanova". Vi na edição do "Expresso" uma página inteira, tipo cartaz, em que eméritos portugueses elogiavam esta obra cinematográfica. Por cima dessas frases elogiosas, via-se o John Malkovich, intérprete do Giacomo, com um eléctrico da Carris em segundo plano (frente ao Teatro São Luís, segundo me pareceu).

Claro que essa visão me provocou logo dissonância cognitiva, acompanhada de leve ansiedade.

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Afinal, no tempo do Casanova já havia esses amarelos? Mas a descoberta da electricidade - especificamente, as aplicações da corrente eléctrica aos veículos -- não ocorreu muito mais tarde?

Ainda pensei: mais uma surpresa (flagrante anacronismo) no cinema português, depois daquela solução cinematográfica nacional dos telões pintados do filme "Os Maias", para representar os exteriores?

Mas, depois de uma pequena busca neste computador (para ir dormir mais descansado), lá fiquei a saber que o argumento do filme se passa em dois momentos: no século XVIII, antes do eléctrico da Carris, e na actualidade. Daí a legitimidade da presença do tal amarelo na imagem, conjuntamente com o nosso dilecto Malkovich do tempo do Casanova...