Provérbio: "Os rios profundos são os menos barulhentos". Viva o silêncio! O problema é que o silêncio, ao que parece, está proibido nas cidades do nosso País... É o que acontece na generalidade dos estabelecimentos comerciais, pela utilização da chamada #Música-ambiente. Este conceito alterou-se radicalmente, com o tempo. Tradicionalmente, a música-ambiente consistia em composições de música clássica ou do género easy listening - Ray Conniff, Burt Bacharach e outros... e também foi utilizado o jazz. Sempre com o volume de som baixinho, para criar ambiência agradável.

Contudo, a partir de certo momento, essa música de fundo desapareceu, substituída por outros ritmos, geralmente a pop music.

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Mas já com o volume de som mais elevado, muitas vezes em altos berros. Como se estivéssemos numa discoteca. Da música de fundo passámos ao ruído de fundo. Uma fonte de mal-estar e stress no cliente.

Nos estabelecimentos de qualquer ramo, até parece - ou é revelado - que há uma autoridade, inacessível (lá de cima) que impõe o statu quo, nessa matéria. "O objectivo primordial da música-ambiente com o som elevado é incitar o cliente a comprar" - isto foi-me dito por uma empregada de uma loja de venda de roupa, muito conhecida, que terá aprendido isso na formação inicial desse posto de trabalho.

A verdade é que, pelo que constato, contrariando o que dizem praticamente todos esses atendedores, poucos clientes apreciam a música-ambiente imposta nesses moldes. Mas a clientela já está dominada e resignada pela situação.

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À boa maneira portuguesa.

Os protestos dos clientes (mesmo assim) mais assertivos face a essa agressão são hesitantes e diplomáticos: "Pode baixar um pouco o som, se faz favor?" (quando, na verdade, o seu real pedido é: "Acabe-me lá com esse som horrível!"), pois os mesmos já se aperceberam que pouco ou nada irá ser feito para os libertar do suplício. Como resposta a essa reacção do cliente, o som continua em alto volume ou é baixado durante uns momentos, para disfarçar, voltando depois à intensidade habitual.

O flagelo acontece nas lojas, cafés, restaurantes e até mesmo em locais improváveis, Um destes locais são as esplanadas de praia. Mas haverá melhor música de fundo do que o som das ondas do mar? Mas, para mim, o local mais incrível para ser perturbado desse modo são as livrarias.

Nós, ali, sós e concentrados, consultando obras... e no ar aquelas cantilenas, de toda a moda e feitio, a poluírem um ambiente que, pela lógica, deveria ser de absoluto silêncio e devoção. Como num templo.

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Essa praga atingiu, inclusive, distintas livrarias, como a do Corte Inglês e a Bulhosa.

Em Amesterdão, cidade que visitei há uns meses, apercebi-me que na maioria das lojas a música de fundo era o jazz, em som baixinho. O que me surpreendeu, deveras, mal habituado como eu ia, daqui. Ah! essa Holanda, país civilizado!

No atendimento de clientes, os objectivos fulcrais de um estabelecimento comercial normal são captar e fidelizar o cliente. É dos livros. Mas, por cá, às vezes até penso que a finalidade principal do acolhimento nas lojas é afugentar os clientes, mal eles passem a porta de entrada.

Na verdade, estando nós mergulhados na dita situação musical de fundo, numa loja deste belo País, muitas vezes o que apetece dizer, em desespero, é: "Tirem-me daqui." Só com um levantamento popular, às tantas... #Negócios