Bosch constitui uma prefiguração longínqua da pintura surrealista do século XX. Este pintor, quando não representava personagens sagradas, inventava visões de pesadelos. Criou um mundo alucinante e poético, feito de metamorfoses monstruosas de seres humanos ou animais em vegetais ou em objectos. A genialidade de Bosch está fortemente marcada no "Jardim das Delícias", o significado e o impacto deste tríptico é simplesmente brilhante.

Acompanhado da inevitável influência da ideologia cristã, transforma a obra de arte não só de cariz estético mas filosófico também, e apresenta e demonstra um forte conhecimento do comportamento humano.

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Tudo isto acompanhado pela inegável qualidade técnica e a capacidade de "chocar" característica de Bosch, faz deste objecto uma verdadeira obra de arte. À primeira vista, o painel central deste tríptico confronta-nos com um idílio único da obra de Bosch: uma vasta paisagem, semelhante a um parque, onde fervilham homens e mulheres nus que saboreiam frutos enormes, em convívio com pássaros e animais, divertindo-se na água e que, acima de tudo, aberta e desenvergonhadamente, se deleitam com múltiplos divertimentos eróticos.

Este tríptico é ainda mais vincado através da luminosidade clara, constante e sem sombras, e pelas cores claras e fortes. No entanto, esta massa de amantes nus não deve ser compreendida como uma apoteose da sexualidade inocente. O acto sexual que o século XX aprendeu a aceitar como função normal da natureza humana, foi na Idade Média frequentemente considerado com profunda desconfiança: na melhor das hipóteses, como um mal necessário e na pior, como um pecado mortal.

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O "Jardim das Delícias" descreve o prazer dos sentidos e, em especial, o pecado mortal da luxúria. Para além destas alusões relativamente claras ao prazer carnal, encontram-se outras figuras metafóricas ou simbólicas. Os morangos, que em toda esta paisagem são de tal modo evidenciados que os Espanhóis lhe chamavam o Jardim dos Morangos, simbolizando este, provavelmente, a transitoriedade do prazer carnal. O que Bosch nos mostra com o "Jardim das Delícias" é, portanto, um falso paraíso, cuja beleza é passageira e conduz os homens à ruína e à condenação, tema muitas vezes tratado na literatura medieval.

No interior da aba esquerda, os tons cinzentos dão lugar a cores vivas e os últimos três dias da Criação foram cumpridos. As preciosas gemas, que se veem a brilhar na lama na base da fonte, e alguns desses animais fantásticos, foram provavelmente inspirados nas descrições medievais da Índia, cujos milagres fascinavam os homens ocidentais desde os dias de Alexandre, o Grande. Acreditava-se que o paraíso terreno se encontrava na Índia.

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Podemos observar, o Criador a conduzir Eva pela mão e a apresentá-la a Adão, que acorda naquele momento e que olha para a nova criação a partir da sua costela com uma mistura de surpresa e alegre antecipação. O jardim não mostra o cumprimento do mandamento divino por parte de Adão e Eva, mas sim a sua perversão. O homem abandonou o verdadeiro paraíso por causa do falso paraíso.

O sonho erótico do "Jardim das Delícias" cede, na aba direita, perante a realidade do pesadelo. É a visão mais violenta do inferno de Bosch. Os edifícios não só ardem, como explodem contra o fundo escuro, e os seus reflexos rugosos transformam a água que os circunda em sangue. #História