A ideia pode parecer... "radical". Mas, a verdade é que, uma vez mais, se provou que o "impossível" não existe e, paradoxalmente, acabou por acontecer. A Grécia foi a eleições no passado domingo, tendo dado a vitória ao Syriza, partido que quase conquistou a maioria absoluta. Como é do senso comum, de há uns meses a esta parte, o Syriza representa teórica e ideologicamente a Extrema Esquerda grega. Mais chocada ficou a Europa quando Tsipras - futuro Primeiro-Ministro - deu a saber que, muito provavelmente, governará em coligação com o ANEL, partido independentista grego, oriundo de uma Direita também ela tida como radical.

Não me parece, contudo, que tenha sido na ideologia que os gregos votaram.

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Creio, antes de mais, que votaram em quatro ou cinco ideias fundamentais: dizer "basta" aos partidos dos governos que levaram a Grécia à situação em que hoje está; lutar contra a asfixiante austeridade (imagine-se Portugal numa situação quatro ou cinco vezes pior); mostrar à Troika e aos líderes da União Europeia que aquelas ilhas ainda pertencem ao povo helénico e que são eles que, em última instância, mandam no seu próprio destino; combater as oligarquias corruptas instaladas, construindo uma nova ordem social e económica; e, por fim, bater o pé firmemente à União Europeia (como anunciando: "Assim não! Não contem connosco. Se querem que continuemos a pagar, temos que rever a situação porque morrem pessoas à fome, desta maneira, e isso é indigno e imoral").

Por um outro prisma, o próprio entendimento do Syriza enquanto partido "radical" ou "extremista" não deixa de ser resultado de uma sociedade habituada aos rótulos.

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Se um partido que consegue quase 50% dos assentos parlamentares no seu país, de forma democrática e após anos de crescimento, pode ser tido como "radical" (mesmo ainda antes de exercer funções governativas), então, em última instância, poderemos entender também o próprio povo grego como radical ou extremista, já que nele votou em massa.

Pelo que a história nos mostrou, a Grécia deve pouco à Europa e ao Mundo no que à percepção do conceito de "Democracia" diz respeito. Recorde-se que a Democracia moderna nasceu em Atenas, no arranque do século VI.

Este "radicalismo" grego (que também pode, se esquecermos os padrões de pensamento dominantes, ser lido como "coragem" ou "desafio" ao poder absoluto dos 'gestores' da Europa) é, por ventura, uma saída tão plausível do 'massacre' a que é submetido o seu povo na actualidade, como qualquer outra. Quem sabe, até poderão mostrar, aos pequenos e frágeis países periféricos e do Sul, como não é necessário ou imperioso baixar sempre a guarda e esperar pelo triste...

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Fado.

Não vem ao caso falar em números ou culpados desta crise (dava 'pano para mangas' e, certamente, teríamos que analisar os diversos 'telhados de vidro' dos vários quadrantes).

Dito isto, poderemos nós entender como "estranha" ou "lunática" a aliança do Syriza com um partido dito de Extrema Direita (apesar do ANEL ter sido fundado por ex-membros do centrista Nova Democracia), para constituir governo? Estranha sim, mas não impossível. A Europa assusta-se pela memória e por preconceito. São partidos com posições históricas antagónicas? São! Isso impede a formação de um governo com ambas as "cores"? Não. De todo! A isso chama-se Democracia.

Democracia não é o regime em que só pára no poder o "moderado". Nem aquele em que rivais antigos não podem trabalhar em conjunto, por inerência ditada pelos analistas e politólogos. É, antes, aquele em que qualquer pessoa está apta a exercer esse poder e funções governativas em nome do povo, desde que eleito para tal, de forma clara e transparente.

Os gregos não votaram em Partidos ou Ideologias...os gregos votaram em pessoas e ideias. Se calhar era importante, para outros povos e nos próximos tempos, ter presente este exemplo dado pela cultura que, convém frisar, deu a conhecer a Democracia ao mundo.