O petróleo continua a descer e ainda não se vê até onde pode ir. Depois de vários meses, Janeiro está quase a meio, já terminou o período de festas mas não há sinais de que a queda possa parar. O périplo de Nicolás Maduro junto dos seus parceiros da OPEP valeu a solidariedade do Irão, também preocupado com a queda dos preços, mas nada de concreto da parte da Arábia Saudita. Quais as consequências?


É voz corrente que a Arábia Saudita, o principal produtor mundial, está em conluio com os Estados Unidos para agredir economicamente a Rússia, o Irão e o Estado Islâmico cujas receitas vêm parcialmente do petróleo. A própria Venezuela, com o regime de esquerda de Maduro herdado de Hugo Chávez, não é bem vista em Washington e os seus problemas podem ser considerados um efeito colateral "positivo". Em Dezembro, já foi visível a forma como a Rússia não aguentou a pressão; dependente do preço do petróleo, o rublo entrou numa desvalorização súbita que vai trazer uma recessão para os próximos tempos, e que já levou a um discreto abrandamento da pressão na Ucrânia. Outros grandes produtores também estão a ser atingidos, como é o caso de Angola, que prevê uma recessão pela primeira vez em 22 anos, uma vez que o petróleo representa 95% das exportações angolanas. Em Portugal, os meios de comunicação social tradicionais já agitaram o espantalho da crise nas exportações para Angola e dos efeitos negativos que isso vai trazer para o nosso país.


A própria Arábia Saudita arrisca uma diminuição no seu crescimento económico. De acordo com o banco Jaswa Investment, citado pelo Financial Times, o crescimento do PIB saudita poderá diminuir dos 3,7% de 2014 para 2,5% este ano e 1,8% no próximo. Contudo, e apesar de o rei se encontrar hospitalizado com uma pneumonia, não há ainda sinais de que os sauditas queiram inverter a tendência. Alguns comentadores arriscam que a jogada saudita é, na verdade, focada não na Rússia ou no Irão mas nos novos produtores de petróleo americanos, cujas novas tecnologias de extracção ameaçam fazer com que os Estados Unidos deixem de ser importadores de petróleo, pela primeira vez desde há décadas.


As autoridades europeias também estão preocupadas com a deflação que a queda do petróleo poderá trazer, e com a consequente paragem do investimento, à espera de melhores dias em termos de retorno. O BCE continua a insistir na manutenção dos juros quase a zero, para impulsionar as maiores economias europeias, cujo crescimento se encontra tão anémico como o das economias da Europa do sul.


Contudo, relativamente a Portugal, os média estão silenciosos sobre que outros efeitos poderá ter esta queda de preços. Um euro desvalorizado e um preço de combustível mais baixo são boas notícias para os exportadores portugueses, assim reajam bem os mercados de destino. A própria subida do imposto sobre os produtos petrolíferos mal se fez notar, submergida pela brutal descida do preço da gasolina nos últimos meses, num golpe de sorte para o governo Passos Coelho. E para o consumidor comum, qual será o efeito de uma queda nos custos do combustível? Irá aforrar ou consumir, depois de um 2014 onde já se sentiu mais dinheiro no bolso?