O problema do #Terrorismo e da radicalização do Islão é complexo e tem raízes profundas. Esta violenta realidade que se alastra pelo médio oriente tem, no meu entender, três grandes origens: o primeiro é o facto de nas sociedades muçulmanas não existir a separação entre o Estado e a Religião. Os dois misturam-se, a organização política e social do Estado baseia-se na Religião; O segundo é o problema das fronteiras. Os países do médio oriente foram "organizados" através de fronteiras fictícias, delineadas sem pensar na cultura dos diferentes povos presentes no terreno. Existem xiitas, sunitas e demais povos e tribos, com culturas e línguas diferentes, obrigados a coexistir e a formar, a partir de qualquer coisa, algum sentimento de união e de ideal comum.

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Tarefa difícil; O terceiro problema é a presença ocidental na região, nomeadamente dos Estados Unidos. São longos anos de bombardeamentos e de operações militares que não são bem-vindas nem vistas com bons olhos pelas populações locais, como muitas vezes se quer fazer crer.

Numa sociedade como a nossa, habituada a satirizar tudo e todos, fazendo pouco de tudo e todos, custa-nos a aceitar como é que se pode matar por causa de uns cartoons. Mas pelo facto de as sociedades muçulmanas não serem laicas e pelos nossos drones andarem lá a "passear", a simples caricatura do profeta, é uma ofensa imperdoável. Muitos agora dizem que o Charlie Hebdo abusava com aquele tipo de representações. Eu pelo contrário penso que o Charlie pode publicar o que bem entender, é isso que é a liberdade de expressão.

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É o direito de as pessoas expressarem os seus pontos de vista e opiniões, por mais estúpidas que sejam muitas vezes. Também não critico a censura de alguns órgãos de comunicação social norte-americanos às capas do Charlie. Têm todo o direito à sua própria linha editorial, apenas acho mau jornalismo. Os limites da liberdade de expressão estão expressos na lei e quando ultrapassados, resolve-se nos tribunais. Esta compreensão de liberdade de expressão e de estado de direito é algo que devemos sempre defender e valorar, porque representam valores fundacionais da nossa sociedade.

Preocupa-me realmente o pós-Charlie Hebdo, preocupa-me pelo perigo de estarmos a acabar com valores queridos para nós, tão queridos como a liberdade de expressão, por medo. Fala-se agora em limitações ao espaço Schengen. A liberdade de circulação de pessoas dentro da Europa e entre países europeus foi algo de muito positivo e unificador para as democracias europeias. Ir agora no caminho oposto de enclausuramento e repressão é algo nefasto para o tão desejado sentimento europeu.

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E tudo por medo. Os terroristas se ainda não ganharam, estão muito perto da vitória.

Outra coisa que me preocupa e/ou repugna é a nossa hipocrisia. A marcha de Paris com líderes políticos de certos países foi, à falta de melhor palavra, um nojo! Pessoas que estão ali a defender a liberdade de expressão e a condenar o terrorismo, quando nos seus países limitam a liberdade de expressão e praticam actos semelhantes aos praticados pelos irmãos Kouachi. O Boko Haram da Nigéria perpetua incessantemente actos hediondos e de um terrorismo profundo, mas foi preciso haver o ataque ao Charlie Hebdo e o triste episódio do desfile de líderes para agora estarmos todos a falar da injustiça que é não se dar a devida atenção ao terror que se passa na Nigéria. Mas enfim, como diz o povo mais vale tarde que nunca, juntando-me às massas pergunto: Então e a Nigéria?