Com os atentados terroristas em França, a Internet e a Comunicação Social foram inundadas por Charlies. Numa pesquisa rápida do que se falou de Charlie Hebdo na Web, "Eu sou Charlie" ou "Nós somos Charlie" são as frases que mais nos aparecem, mas "Não ser Charlie", "Eu não sou Charlie" ou "Nem todos somos Charlie" também se fazem ouvir. Ou ler. Várias crónicas nos jornais online, posts em blogues e comentários nas redes sociais contrapõem, criticam ou denunciam alguns Charlies. Dizem que estes estão a ser hipócritas, ou que "ser Charlie" não é obrigatoriamente bom já que o jornal em causa abusava da liberdade de expressão quando brincava com coisas tão sérias quanto a religião.

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Há ainda quem diga "ser Charlie" porque os atentados se realizaram num país europeu como a França, mas que com os que acontecem noutros países menos influentes ninguém se rala nem se "charliiza".

Assim, depois da leitura de tanta opinião e contra-opinião ficam a pairar as seguintes dúvidas:

Mas, afinal, o que é isto de "ser Charlie"?, É exibir o luto pelo assassinato dos cartoonistas? É condenar os atentados? É defender a liberdade de expressão, sob qualquer forma, incluindo a humorística, demonstrando repúdio por actos violentos que atentem contra a mesma?

Penso que, para alguns, "ser Charlie" será uma destas hipóteses enquanto para outros será outra, ou para outros ainda não será nenhuma das razões apresentadas, e para outros tantos serão todas estas razões que justificam "ser Charlie," nem que seja só por uns dias.

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Mas "ser Charlie" poderá ir muito além do repúdio pelos assassinatos ou da questão da liberdade de expressão, quando entendemos que contém, intrínseca, a capacidade de entender e aceitar o humor. Porque o jornal Charlie Hebdo é um jornal que publica cartoons de um humor controverso e muito contestado, um humor que cumpre a função de arranhar ideologias, denunciar atitudes, ferir susceptibilidades. Um humor que cumpre a função do humor, fazendo rir quem lhe achar graça e abanando a sociedade para que se discutam questões importantes, para que se ponham em causa ideais, para que se pense.

E é aqui que chegamos ao cerne desta questão: ao humor que faz pensar e a esta indução ao pensamento que o torna numa arma perigosa que muitos pretendem extinguir. Reflectindo nesta questão do pensamento ser o principal inimigo da ignorância, do fundamentalismo, da manipulação de massas e das lavagens cerebrais, notamos que tudo o que o promova pode ser um alvo a abater por quem empreende nestes objectivos.

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Mas, e infelizmente, o humor é entendido por poucos nesta vertente de fazer pensar, porque colocar à margem o facto de se lhe achar ou não graça não é fácil e este exercício quando não é bem-sucedido dificulta o necessário discernimento para entender o humor como um instrumento importante à sociedade.

É pelo facto de me parecer ser de elevada importância não deixar morrer a possibilidade de recriação da sociedade, também através do humor, que penso que "ser Charlie" não se poderá cingir a uma luta pela liberdade de expressão nem ao repúdio por actos terroristas, mas terá que visar também o esforço para acabar com a ignorância, instruindo as sociedades no exercício da introspecção e dotando-as da capacidade de se rirem delas próprias.