Estranho mundo, este em que vivemos. Enquanto o planeta esteve colado à televisão, vendo o verdadeiro filme de terror que se vivia em França, o Boko Haram terá dizimado cerca de duas mil pessoas numa cidade da Nigéria, sem que (quase) ninguém tenha dado conta. Parece que, quando não há uma hashtag do género #jesuischarlie ou #bringbackourgirls, não há mortes a lamentar. Mas as vidas que se perdem são bem reais.

A propósito deste assunto, um amigo falou-me numa espécie de algoritmo que calcula o valor da vida consoante a zona do mundo onde se vive. Ou seja, por cada vida que se perde no Ocidente, 10 ou 20 ou 30 (os valores são, naturalmente, aleatórios) pessoas morrem no Médio Oriente ou em África sem que o twitter e o facebook sejam inundados de bonitas imagens e frases inspiradoras.

Publicidade
Publicidade

Não sei se esse algoritmo realmente existe, mas penso, com alguma tristeza, que é possível.

Bem sei que o que se passou em França não tem apenas a ver com a morte de 20 pessoas (entre polícias, cartoonistas e jornalistas do Charlie Hebdo, reféns e terroristas). O que está em causa é um ataque vil à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão, à liberdade de religião, enfim, à liberdade. Um ataque que repudio por completo. “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até ao fim o teu direito a dizê-lo”, escreveu alguém, não sei bem quem, mas com quem concordo em absoluto. O que me desiludiu um pouco foi o carneirismo, a forma como, de repente, somos todos Charlie, mesmo aqueles que nunca tinham ouvido falar do jornal, ou não gostam dele (como é seu direito). Só porque é moda, só porque toda a gente partilha, só porque os desenhos até são bonitos, só porque fica bem.

Publicidade

Há uns meses, em Abril de 2014, 276 raparigas foram raptadas de uma escola da Nigéria. Mais uma vez, “o mundo uniu-se em torno desta causa”. A hashtag #bringbackourgirls tornou-se viral. Celebridades e anónimos publicaram fotos exigindo o regresso das estudantes a casa. Ficou visto, e os registos do twitter comprovam-no, que, passado uma semana, já poucos se lembravam das meninas de Chibok. Desta vez, morreram duas mil pessoas, mas como não foi abertura do Telejornal (e compreendo perfeitamente as opções editoriais das televisões), como estávamos tão focados no que se passava em França, estas mortes vão passar quase em claro. Tivesse esta tragédia acontecido noutra altura, em que a actualidade noticiosa estivesse mais calma, e estaríamos mais uma semana a chorar as vítimas. Assim, é como se nunca tivesse acontecido. Estranho mundo, este em que vivemos.

Ficam os factos: na passada quarta-feira, os combatentes do grupo terrorista Boko Haram lançaram uma ofensiva sobre a cidade de Baga, no nordeste da Nigéria, em que terão morto cerca de duas mil pessoas. Segundo a Amnistia Internacional, foi “o massacre mais mortal de sempre” levado a cabo pelo grupo.