Em Novembro de 1807, o governo português, na pessoa do Príncipe Regente, D. João, e à notícia de que um exército francês avançava sobre Lisboa, concretizou a decisão de abandonar Portugal Continental e estabelecer-se no Brasil. Com o apoio da marinha inglesa, e dada a incapacidade naval da França depois da batalha de Trafalgar, o plano teve sucesso total. O general Junot, chefe do exército invasor, só encontrou uma "Junta de Regência" com instruções de D. João para não resistir. O governo de Portugal estava agora no Rio de Janeiro, onde a Corte chegou em Março de 1808.


A opção foi polémica. Cerca de 15.000 pessoas ligadas à Corte e à nobreza embarcaram, deixando uma sensação de fuga. Como se o Príncipe tivesse abandonado a Pátria à sua sorte. Com efeito, 13 anos mais tarde, o ressentimento contra D. João, por não ter voltado do Brasil depois do exílio de Napoleão em Santa Helena, era enorme. Contudo, esta foi uma decisão acertada e na qual Portugal se mostrou mais de 100 anos avançado em relação à Europa.


Foi a primeira vez que um governo europeu procurou exílio e protecção fora do seu espaço, da sua metrópole. No século XX, vários países europeus tomaram exactamente a mesma decisão perante Hitler que D. João perante Napoleão. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Bélgica ocupada pelos alemães formou um governo no exílio. Mas foi na Segunda Guerra Mundial, ao multiplicarem-se as ocupações alemães de capitais europeias, que se formaram nada menos que 9 governos no exílio - em Londres. Vários reis e presidentes europeus exerceram a mesma posição política que D. João no Rio de Janeiro: a ocupação era ilegítima e transitória, e qualquer autoridade militar aí estabelecida não teria validade legal ou oficial. Nesse aspecto, Portugal foi totalmente pioneiro.


Nem é preciso ir mais longe. Em Espanha, uma monarquia indecisa e "doente", sem a capacidade de decisão de D. João, nunca se retirou para o México, como chegou a ser proposto. O resultado foi o enxovalho dos Bourbon, ora chamados por Napoleão a França, ora com o rei substituído pelo "rei" José Bonaparte, irmão de Napoleão, como autoridade legítima. Em Portugal, a autoridade da casa de Bragança nunca esteve causa - o que se passou é que Portugal Continental esteve total ou parcialmente ocupado por tropas estrangeiras. 


O próprio Napoleão veio a reconhecer, nas suas memórias, que D. João havia sido o único político que o tinha "conseguido enganar". Bonaparte não havia colocado a hipótese de o governo português se poder estabelecer no Rio de Janeiro. Foi uma surpresa total para o mestre da guerra e da política. 
#História