Hoje, veio-me à ideia este tema: a abordagem, pelos diários de grande tiragem, do conteúdo de jornais da imprensa regional portuguesa. No "Jornal do Comércio", o mais antigo diário do País, encerrado há vários anos, havia uma secção que incidia nessa matéria. O redactor de tal secção era um jornalista veterano. Condizendo com a provecta idade do jornal..

Vou escamotear por alguns momentos esse tema centrado na #Imprensa local, para narrar uma saída que eu e outros profissionais desse jornal (quando eu lá trabalhava) fizemos, a altas horas da noite, após o fecho da edição diária, acompanhando o referido jornalista. Saída para onde? Resposta: para a casa de fados Márcia Condessa, na Praça da Alegria, situada, curiosamente, entre o Maxim's e o Hot Club.

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Na Márcia Condessa, esse redactor ceou calmamente, ouvindo os fados, cantados ao vivo. O fado não pertencia então ao mainstream musical, como acontece agora. Mas esse jornalista apreciava-o, deveras. Assumiu, durante esse espectáculo, uma postura low profile, no rosto um ar devoto, como se estivesse a participar num acto religioso.

Outra realidade marcante era o rigoroso silêncio, praticado por ele e demais clientes aficionados (o que não se passava comigo e com os outros colegas do jornal). Quando algum de nós - os não fundamentalistas do fado - pedia, mesmo em voz baixa, que lhe passassem o sal ou a garrafa de vinho, essa leve quebra do silêncio cerimonial era imediatamente sancionada com um "psst" dos restantes clientes-espectadores. Aproveito para vos informar que é necessária uma habilidade própria para produzir o som deste "psst" de admoestação, típico de uma casa de fados: há que comprimir os lábios de um modo especial, para que o som resultante tenha uma sibilação própria, com um som mais agudo do que o habitual.

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Acho que esse jornalista falou muito pouco nessa noite. Ficou-me na memória a sua sobriedade e charme, tipo bon vivant, na situação. Como se tudo aquilo estivesse perfeitamente integrado no seu dia-a-dia. Muito provavelmente, era um habitué dessas saídas nocturnas pós-laborais. Um celibatário? Enfim, um aristocrata, diria eu.

Retomando o tema central deste texto - recolha de notícias e crónicas de jornais regionais, múnus desse redactor -, imagino que tal exploração da imprensa local atingisse também lugares do Portugal profundo. Podendo assim contribuir para atenuar a tão criticada macrocefalia do País: macrocefalia informativa, neste caso.

Exemplos dessa imprensa: "Jornal do Fundão", "O Templário", de Tomar, "Jornal de Tábua", "Jornal da Batalha", etc. Enfim, órgãos da imprensa local, de um universo de jornais, muitos deles totalmente desconhecidos dos lisboetas. Parece-me que secções desse género não existem ou são raras nos actuais diários de Lisboa e Porto.

No "J.C.", eu prezava muito esses curtos textos informativos.

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E atraía-me bastante uma expressão muito usada pelo mencionado redactor: "Do jornal regional 'X', respigamos…". Uma delícia, este "respigamos". Metáfora vegetal, delícia para os ouvidos.

Finalizando, após sublinhar a relevância do trabalho do tal jornalista, aproveito para apelar ao incremento do apoio aos jornais regionais. Que, na sua singeleza, demonstram que há mais Portugal para além das duas principais cidades do País. Aflorei aqui também um caso de vida interessante (numa visão subjectiva, claro!): o desse saudoso jornalista, que, pelos vistos, sabia aliar a bonne vivance lisboeta à apreciação da realidade regional, retratada na sua imprensa.