Na sequência da vitória eleitoral do Syriza na Grécia, a opinião pública nas redes sociais em Portugal foi muito radicalizada e pouco esclarecida. Os pontos de vista reflectiram as opiniões políticas. A "malta" de esquerda celebrou a vitória, espera que Tsipras consiga fazer frente à Troika. No geral, ninguém se pergunta exactamente como é que isso vai ser feito. A "malta" de direita reforça o estereótipo dos gregos como sul-europeus corruptos, diferentes de nós, que até elegem as esquerdas radicais, e prevêem uma catástrofe social a muito curto prazo, uma vez que não é crível qualquer tipo de cedência por parte da Alemanha aos "contos de crianças", como lhes chamou o dr. Passos Coelho.


Quase ninguém referiu o que toda a gente sabe. A Grécia pode entrar em colapso se não tiver financiamento internacional assegurado a curto-prazo, seja dos mercados ou do Banco Central Europeu. A dívida da Grécia, como está, é impossível de pagar. E tanto mais impossível, sabendo que o crescimento económico está fortemente comprometido. Desemprego jovem acima dos 60%, desemprego acima dos 25%, seis anos de recessão, partido neonazi no parlamento. Vários anos de austeridade só reforçaram este cenário. O ponto essencial é saber qual o poder negocial que Tsipras e Varoufakis têm para alterar aquilo que está estabelecido (de acordo com a direita, não será nenhum).


Uma das opiniões mais informadas veio de João Miguel Tavares. Este comentador de direita não deu quase palpites nenhuns, sabendo que esta é uma situação imprevista e imprevisível. Para Portugal, o principal interesse é que a mãe da nossa civilização sirva como laboratório experimental, para podermos ver como corre. Se correr mal, as nossas barbas ficam de molho. Se correr bem, talvez possamos imitar algo - nós que habitualmente tentamos imitar os alemães e os suecos.


A estratégia internacional seguida por Alexis Tsipras nos primeiros dias é muito clara: negociação, estabilidade, nada de cortes bruscos com ninguém. Embora o primeiro-ministro belga, após uma semana, tenha pedido a Tsipras para "pôr as cartas na mesa", já veio a resposta: indexar o pagamento da dívida ao crescimento económico grego. O primeiro-ministro e o ministro das Finanças já iniciaram uma ronda de visitas junto de vários parceiros europeus e o discurso é simples: a Grécia quer manter-se no euro, pagar o que deve e honrar os compromissos que assumiu com quem a ajudou. O que exige é aliviar a austeridade para que seja efectivamente capaz de o fazer. Um discurso de responsabilidade e estabilidade, como diriam os comentadores de direita. Ao mesmo tempo, há a retórica soberanista: a recusa de dialogar com a Troika, e a questão das sanções à Rússia que a Grécia supostamente não aprovaria. Mais uma vez, nada de alarme: Atenas exigia apenas "respeito" por não ter sido consultada - mas já disse claramente também que não vai pedir apoio à Rússia. (Nem tal faria sentido, de resto.)




Passada uma semana, não há grandes sinais de fogo. Nem mesmo nos mercados financeiros, apesar da queda da bolsa de Atenas (tendo em conta as primeiras medidas "esquerdistas", de parar privatizações e aumentar o salário mínimo.) Ainda é cedo para ver se as opiniões públicas da Alemanha e do norte da Europa vão acomodar juros mais baixos e prazos mais longos. Também é cedo para ver se a esquerda que apoiou o Syriza vai considerar tudo isso uma cedência ao capital. Mas o caminho que agora se inicia era o único que se devia esperar - o do bom senso.