Os escândalos na vida política, tal como tudo na vida, são inevitavelmente cíclicos. É inevitável porque se trata de um jogo de poder que normalmente tem nos bastidores acontecimentos ocultos. Cíclicos porque nada consegue ficar oculto para sempre. Peguemos neste recente caso com o Primeiro-ministro e a sua dívida à Segurança Social. Uma dívida astronómica para qualquer cidadão normal, que parece impossível passar despercebida mas que o actual primeiro-ministro conseguiu manter oculta durante anos, com uma justificação incompreensível.

É o exemplo perfeito do que significa ser político, dizer algo para convencer alguém, algumas vezes com sucesso, outras nem por isso.

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O povo português já viu e ouviu de tudo, desde autarcas com sobrinhos taxistas e contas na Suiça até um Primeiro-ministro que viu armas de destruição maciça que não existiam tendo como recompensa o cargo de Presidente da Comissão Europeia, sem esquecer um ex-Primeiro-ministro que está preso enquanto decorre um processo contra si. O resultado prático é a revolta generalizada por estas situações acontecerem sem que existam consequências. Para o português comum, ultrapassar um dia do prazo para pagar algo ao Estado significa ser-se multado imediatamente, começando-se logo a falar em pagamento coercivo e penhoras.

É natural que nos sintamos todos injustiçados, por sentir que é permitido ao político infringir a lei, mas aquilo que revolta mais é sentir que quem está no poder desgoverna o seu povo para se governar a si próprio.

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De certa forma, até é um pensamento injusto, próprio de quem já está farto de se sentir enganado e, sobretudo, farto de trabalhar uma vida toda para sustentar um Estado que é uma fonte de injustiça e corrupção.

A democracia portuguesa está de mãos atadas, assim como a justiça, a saúde e a educação, porque além de existirem interesses ocultos e pessoais que subsistem no actual estado das coisas, também existe uma profunda incompetência e falta de carácter. Tudo apoiado na memória curta do povo português que se conforma facilmente com o constante assalto ao seu direito de ser feliz e de ter uma vida digna, algo que acontece também de forma cíclica, infelizmente.

Passos Coelho definitivamente não é um cidadão perfeito mas demonstra bem o que é necessário ter e ser para chegar a Primeiro-ministro: o chefe do governo que todos nós merecemos, por ter sido eleito democraticamente, seja pelo voto directo ou pela crescente abstenção, uma apatia alarmante que cada vez reúne mais consensos no dia de eleições.

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A recente petição entregue para a demissão de Passos Coelho não é mais do que mais uma peça no jogo do poder político, uma reacção equiparável a um curativo para uma pessoa que teve os seus membros decepados. A democracia está doente pela mentira, falta de transparência e jogos de bastidores, mas sobretudo pelo facto do interesse do povo que supostamente serve para ser constantemente sobreposto a outros interesses. E isso, infelizmente, não é exclusivo a Passos Coelho.