A crise na Ucrânia tem sido relativamente desvalorizada nos media portugueses. Demos mais atenção à Grécia, uma vez que nos identificamos muito mais com o problema da troika e da austeridade. O Estado Islâmico é uma ameaça, mas sentimos o mesmo que sentíamos com a Alcaida: à partida, não se metem com a gente. Já à Ucrânia está, ou parece estar, muito longe. Alguns dos comentadores sustentam que a culpa é do Ocidente porque colocou bases militares junto à fronteira da Rússia, que não ameaça ninguém. Eventualmente, porque incentivou a adesão à NATO de países da antiga União Soviética.


A Rússia tem mais de 500 anos de história e o seu comportamento não tem sido outro que crescer, ameaçar e intimidar os vizinhos, e continuar a crescer. A Rússia de Moscovo começou por crescer para sul, para o Mar Negro. Cresceu para a Suécia, que viu nasceu junto às suas fronteiras a grande cidade de S. Petersburgo, depois de derrotada. E cresceu para leste, para o fundo da Ásia, absorvendo mais e mais territórios até chegarem à Índia, à China, atravessar o mar e ocupar o Alasca - que depois vendeu aos Estados Unidos. Absorveu a Polónia, até chegar ao coração da Europa, fazendo de Varsóvia uma capital de província. Depois, em 1945, conseguiu colocar governos submissos a Moscovo em quase todas as capitais da Europa oriental. Em 1991 viu, enfim, um recuo significativo.


Pelo caminho ficou a colaboração com Hitler para dividir a Europa de Leste em duas áreas de influência, em 1939, numa política que funcionou bem até ser interrompida pela invasão alemã de 1941. A tendência para a expansão e o crescimento era igual, quer o regime fosse czarista ou comunista. Sendo que a forma de governo em Moscovo foi sempre autocrática e ditatorial. E assim parece continuar a sê-lo.


A Rússia não é um estado que nos mereça muita simpatia ou confiança. Não se trata de comparar horrores ou branquear barbáries cometidas por este ou aquele país, no Ocidente, na Rússia, na China, no Japão. Não há país algum que tenha a "folha limpa" - com a possível excepção do Tibete ou do Butão. A questão é que a Rússia é um país demasiado grande e com um historial repetido de agressividade. O povo russo, de uma forma geral, parece apreciar o regime autocrático, o "homem forte". O país nunca teve democracia nem tem uma cultura desse género, e podemos acreditar que o cidadão russo comum apoia Putin nas suas aventuras - mesmo que a crise económica seja desagradável. O assassínio de Boris Nemtsov é apenas o caso mais recente; ainda nos esquecemos da Anna Politkovskaia ou de Alexander Litvinenko.


Não é por acaso que os vizinhos da Rússia querem a NATO, a União Europeia, e distância em relação a Moscovo. Cabe-nos a nós, alemães, nós, franceses, nós, belgas, nós, portugueses, nós, europeus em geral, dizer se estamos solidários com aqueles países que "levam" com as pressões e ameaças da Rússia há 500 anos - tendo em atenção que, por estes dias, a China não concorda connosco.