A Figaro's, barbearia de aspecto vintage na Rua do Alecrim, em Lisboa, tem gerado polémica desde a sua abertura devido a um cartaz, que se encontra à entrada, que anuncia permitir a entrada a homens e a cães, mas não a mulheres. No passado Sábado, dia 21 de Fevereiro, foi invadida por um grupo de activistas, com máscaras canídeas, emitindo latidos, que afirmavam que ninguém nasce cão, gerando, assim, novo alarido em torno do estabelecimento.

A gerência da Figaro's tem tentado desculpar e justificar a discriminação no seu estabelecimento com argumentos algo inanes, como o velho (e ilegal, dado que dos princípios de funcionamento de um estabelecimento comercial consta o princípio da igualdade) "direito de admissão".

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A gerência alega que as mulheres deixam os homens pouco à vontade e, segundo Fábio Marques, fundador do estabelecimento, é necessário "uma privacidade masculina" ao receber tais serviços. O fundador contra-argumenta com a existência de ginásios femininos (que é uma lástima terem de existir, pela sua existência se dever ao desconforto que muitas mulheres sentem em ginásios mistos, mas que, pelo contrário, não vedam o acesso a homens, mesmo que estes não usufruam dos serviços).

Os nichos de mercado são salvaguardados pela lei, podendo a cadeia de ginásios VivaFit invocar o direito à privacidade. É um local onde homens podem entrar, mas não se podem inscrever. Mas a Figaro's não é um nicho de mercado, é declaradamente um estabelecimento de discriminação. Fábio Marques estraga qualquer razão que pudesse procurar obter, ao afirmar que "não vamos tratar por igual aquilo que é diferente e, felizmente, os homens são diferentes " - acrescentando que não lesa qualquer direito das mulheres, achando ao mesmo tempo humorístico e não depreciativo comparar mulheres com animais.

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Isto é, acima de tudo, preocupante e um total atentado à igualdade social entre homens e mulheres, uma tendência neo-conservadora repugnante que, assustadoramente, parece que há quem veja com naturalidade. O poster à porta, a proibir a entrada de mulheres, é um gesto político, misógino e discriminativo, de clara exclusão. É uma cultura machista vintage que se orgulha do seu machismo e misoginia, que envolvem a discriminação sexual em glamour e a ostentam logo à entrada. Se no lugar da imagem da mulher estivesse um negro, muitos invocariam o, não tão longínquo assim, Apartheid, as lutas de Martin Luther King, muitos se insurgiriam. Assim, sendo uma mulher o alvo da discriminação, não é despertado o sentimento de revolta.

Após o protesto no final de Fevereiro, os activistas prometem voltar. Entretanto, a Figaro's anuncia nas redes sociais e nos media que não vai desistir do seu conceito comercial e, insultuosa e quase ironicamente, apela a que mulheres (aquelas a quem não só os serviços mas a própria presença no seu estabelecimento é vedada, aquelas que "felizmente" não são iguais aos homens) os sigam em redes sociais como o Instagram.