A guerra civil no Iémen tornou-se internacional esta semana, com a formação de uma coligação de países islâmicos sunitas, liderados pela Arábia Saudita,, atacando o movimento rebelde xiita que ameaça controlar a totalidade do país. Além de Riade e dos vizinhos do Golfo - Qatar, Barém, Emirados Árabes Unidos - também a Jordânia e, especialmente, o Egipto se juntaram a esta coligação. Outros países anunciaram intenção semelhante, notavelmente Marrocos e o Paquistão, ambos relativamente distantes do epicentro. O movimento huthi, representante dos muçulmanos xiitas do Iémen, é apoiado pelo Irão. Para já, as maiores potências mundiais - a começar pelos Estados Unidos - mantêm-se na expectativa. 


A intervenção sunita no Iémen é a peça que faltava para desenhar claramente uma mini guerra fria entre o campo do Islão sunita e o do Islão xiita, liderados pela Artábia Saudita e pelo Irão, respectivamente. A divisão entre os dois grandes "ramos" do Islão existe há mais de um milénio, mas nos últimos anos o fosso tem-se tornado mais visível, na ausência de forças externas - o colonialismo, a presença de um Império Otomano, a antiga Guerra Fria, etc. - que o "abafem". A guerra de 10 anos entre o Iraque e o Irão, na década de 1980, foi também uma guerra entre sunitas e xiitas. Neste quadro, a luta contra o autoproclamado Estado Islâmico e o problema da Palestina (sendo Israel considerado, na melhor das hipóteses, um vizinho desagradável, e na pior, um inimigo a destruir por parte dos estados próximos) são duas questões "tratadas" totalmente em separado desta "guerra fria".


Hoje, o cenário de instabilidade no Médio Oriente já começa a tomar o contorno de guerras por procuração entre a Arábia Saudita e o Irão, como faziam os Estados Unidos e a União Soviética. Depois da guerra civil na Síria, que já dura há 4 anos (onde o Irão apoia o governo de Bashar al-Assad e Riade os rebeldes), da presença incómoda de movimentos xiitas em vários países da região, da tensão que existe dentro do Iraque, agora a Arábia Saudita toma nas suas próprias mãos - como fez a América no Vietname, e a União Soviética no Afeganistão - a defesa do seu aliado no Iémen. O Egipto já enviou navios de guerra - pelo estreito de Bab el-Mandaab, a saída sul do Mar Vermelho, no Iémen, passa 40% do comércio mundial.


E os Estados Unidos? Apesar de serem um aliado firme da Arábia Saudita e, portanto, do governo do Iémen - estando a Alcaida também do outro lado - alguns afirmam que as recentes negociações dos americanos com o Irão, a propósito do respectivo programa nuclear, levem os sauditas a recear que o seu inimigo xiita do outro lado do Golfo se sinta mais confiante - e daí esta tomada de posição, numa altura em que houthis, depois de dominar a capital Sanaa, se preparavam para tomar Aden, a segunda cidade do Iémen. E isto, mesmo que não existam grandes indícios de um efectivo alinhamento político entre esta milícia rebelde e Teerão.
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